Avançar para o conteúdo principal

Mensagens

Vitorinos, Saramagos e Santos

Escritores e leitores escrevem e ou leem romances, ensaios, teses dos mais variados temas, desde a vida da pulga nos pelos do cão ao comportamento algo atípico do planeta HD 131399Ab, devido aos três sóis que tem de gravitar. De forma mais ou menos direta ou escondida, expõem as suas vidas (ou as dos seus personagens e objetos) escarrapachadas e sofridas ou venturosas. Geralmente, misturam a realidade e a ficção, atirando substantivos, adjetivos e verbos em catadupa, rodeando os personagens das virtudes e defeitos que todos partilhamos. Por exemplo,  o Santos escreve e lê notícias com aquela entoação teatral de quem vive dentro dos acontecimentos, Depois, nos livros, envolve esses ou outros factos ditos reiais numa história inventada. O Vitorino no seu sotaque, encantava-nos com pequenas histórias recheadas de personagens e acontecimentos improváveis, alguns reais outros, possivelmente inventados. Saramago, com frieza e lucidez, recheava as suas histórias de factos reias e imag...

Trato principal

O Virgolino tinha ganho a sua reputação de razoável enxertador de bacelos com determinação e trabalho. Por isso, ele era solicitado pelos donos das vinhas para fazer enxertia. Não era o mais desenvolto na tarefa, mas tinha feito o seu lugar de pertencer a um grupo especializado em que o Anselmo e o Russo eram distintos. Nos fins do Inverno e começo da Primavera lá andava o Virgolino pelas vinhas de quem o rogava. Juntamente com o seu ajudante para chegar os enxertos, ia percorrendo valada a valada e,  ao encontrar um bacelo em condições, pousava o seu cesto de enxertia, pedia ao colega para limpar ao redor do bacelo, pegava na tesoura e cortava-o; com a sua navalha afiada, fazia depois o corte, afiava em cunha o garfo, enfiava-o na ranhura, atava com ráfia e uma pressão suave no garfo para ficar bem apertado; por fim, a sua prece de boa sorte. O ajudante aconchegasse com terra a sua obra. Mas o Virgolino era exigente. Como qualquer artista gostava de ser tratado com dis...

Meadas

A vida na aldeia rolava pacata e circular. Ia-se realizando a lavoura, rezando a Deus e aos santos, comentando as novidades. O tio Bino, já espigado na idade, destacava-se pela sua agudeza nos comentários, a sua falta de lógica nas posições assertivas sobre diversos temas e o seu alcance visual inigualável. Com a sua voz fina e barba extremamente rala, era alvo de comentários jocosos, mas respeitosos.  A sua resposta ao barbeiro quando se sentava na cadeira e este lhe perguntava:  - "Barba ou cabelo, sr Bino?" Respondia:  - "Tudo abaixo" Mas a sua falta de barba dava-lhe poderes fora do comum. -"Oh Sr. Bino isso pode lá ser? Veja bem o que está a dizer!!!" Dizia a Rentelha, mordendo o lábio e esboçando um sorriso descrente e algo sarcástico.   -"Não me desmintas!!! Não me desmintas!!" Reafirmava peremptório na sua voz esganiçada, apontando com o dedo indicador para as Meadas. "Eu vi muito claramente os coelho...

Luzia

Ei-los entados à mesa dum qualquer quiosque de uma bomba de combustíveis junto à estrada que foge da cidade, saboreando os habituais 3 ou 4 golos de café numa tarde solarenga e triste de Dezembro. Poucas mesas e cadeiras dispersas por um pequeno espaço coberto por um moderno toldo de plástico acinzentado. Umas mesas ocupadas com transeuntes ou residentes locais, outras à espera. A cidadania obrigaria a que os clientes, depois de adquirirem o café no quiosque e o saborearem nesta sala parcialmente condicionada pelo sol, vento e chuva, entregassem as respetivas chávenas, pires e colheres no balcão onde as recberam. Mas por vezes a preguiça ou a pressa abandonam na mesa as beatas e a loiça. Um ou outro empregado reparam estes abandonos. Mas lá aparece também, com frequência, o bem disposto e pachorrento empregado mor, fundador e patrão moral da bomba e demais serviços anexos. Sempre coloquial e palavreador recorda ou improvisa histórias dos seus aparentemente bem passados anos...

Valor de posição

Noite cerrada de inverno. Chuva tocada a vento sul, batendo nas vidraças das janelas, viradas a sudoeste, duma casa pregada na encosta em frente ao Marão. A água escorre a custo pela janela. Alguma dela entra no quarto pelas gretas abertas no betume que fixa os vidros aos caixilhos, a necessitarem de "reforma". Num quarto exíguo, uma criança, sentada na enxerga cheia de palha de centeio e assente no chão, percorre o seu livro escolar de aritmética nas páginas para aprender a contar e ao sistema de numeração decimal. Não sabia, naquela altura, que existiam outros sistemas de numeração. Tudo coisas criadas ou imaginadas por homens longínquos, talvez na Ásia Hindú, onde hoje é o Paquistão. Os árabes, perceberam a sua importância aprenderam-nas, melhoraram-nas e trouxeram-nas para a Europa. Duma candeia de azeite irradia uma luz trémula. O nosso aluno da primária, lê e relê aqueles gatafunhos numéricos, misturados com mais outros gatafunhos, as letras. Percorre do um...

Semnome

De manhã cedo, pai e mãe saem para o trabalho deixando em casa os seus dois filhos. O mais novo alimentado a biberão; o mais velhinho já roendo côdeas de pão e bebendo malgas de caldo. Nasceram na década de sessenta, no meio de um turbilhão de privações. O sustento das famílias mais pobres fazia-se com muito trabalho e magras refeições. A entreajuda frente à adversidade era mais forte que nunca, mas a fome apertava e o pouco que havia, tinha de ser meticulosamente repartido. O Laurido depois da sua malga de caldo, dava o biberão ao irmão, conforme os avisos da sua mãe. Porém, entre os avisos maternos e os avisos da sua barriga, acabava por ceder à tentação e, além da sua ração, ia surripiando porções do biberão do seu irmão. A sua consciência foi acomodando o seu incipiente sentimento de culpa. As desconfianças da sua mãe, que via o seu mais recente rebento sem medrar e definhar, gradualmente acabaram por descobrir o que estava a suceder. As repreensões foram implacáveis e a verg...

O mundo em que vivemos

Dificilmente encontramos palavras para descrever e compreender o mundo em que vivemos. Deus terá colocado esta bola no meio do infinito. dotando-a de movimentos, muita água, terra e rochas, seres vivos pequenos, médios e grandes.Terá dado um primeiro sopro e daí em diante as coisas foram-se encadeando, divergindo e convergindo, acelerando e travando. desaparecendo e reaparecendo mais adiante. Espalhada pelos vales, montes e colinas, resistindo ao frio. calor, dominando o meio que o rodeia aí está uma das espécies de seres vivos que, como uma praga, coopera e compete, esventra e remenda a casa que o sustém.  "Abre a janela e deixa-me entrar! Está aqui um calor de rachar e eu já não aguento mais!" gritava uma triste melga agarrada a custo ao vidro exterior da janela da casa do Góis. Este, impávido e sem contemplação, fazia que não ouvia e apreciava os pardais irrequietos tasquinhando os figos lampos acabados de amadurecer. Olhou para o seu interior e remoeu o seu...

Singularidade e Regularidade

Praticamente em quase tudo há sempre algo de singular e algo de regular. Singularidades e regularidades são, aliás, uma das traves mestras da sociologia. Há pessoas regulares e especiais. Há coisas vulgares e excecionais. Há lugares banais e originais e por aí fora. Mas por que é que as coisas são assim? Porque as vemos, ouvimos e sentimos como tal. Afinal, representamos ou temos na nossa mente aquilo que percebemos ou aquilo que sabemos? As duas ou nenhuma delas... quem sabe! A Srª. Ajuda, o Sr. Moedas e o Sr. Regime estão sentados à mesa do café. A Srª. Ajuda anda num rodopio porque é constantemente solicitada para fazer o que melhor sabe, tapar as falhas da singularidade. É preciso acorrer a uma necessidade especial aí vai a ela. É preciso levar o paralítico às compras, o velho à missa, o cego ao cinema, o doente à consulta, o gazeado ao hospital de campanha, a sopa ao sem abrigo... E a lista não pára! Às vezes parece-lhe que ja anda a exagerar nas ajudas e que os seus client...

Memória

Não é vulgar um carpinteiro chamar-se Defry. Mas é mesmo esse o seu nome. Como qualquer profissional, amador da sua arte, acaricia as suas ferramentas com emoção e delicadeza. Usa-as com suavidade e destreza. Arruma-as e aconchega-as nos seus aposentos donde saem pela mão do seu dono, para fazer o seu trabalho. É um prazer para um observador paciente, ver de um monte de tábuas surgir, lentamente, peças polidas e precisas, encaixes sólidos, deslizes suaves e no fim, uma obra acabada, não assinada, mas em que os olhares retilíneos e as mãos meticulosas do mestre deixaram a sua marca. O Defry pode lembrar o passado. O cheiro adocicado da madeira cortada mistura-se com o ruído ritmado da serra a deslizar pelas suas nervuras. O variado visual das texturas e cores reflete uma luz mortiça, entrada a custo pelo pequeno janelo ao fundo da pequena, mas funcional, oficina. Mas o Defry, orgulhoso da sua arte, que em várias décadas se tem vindo aprimorando e atualizando num pequeno es...

A padiola

Numa tarde já húmida e fria do final de Outono, Casimiro teve um pequeno deslize no ramo da oliveira a que subira para varejar e caíu desamparado no chão. Fosse alguma pinga a mais ou o ramo molhado onde se apoiara, o que é certo é que caiu. Pressentiu que a coisa era séria. Não se conseguia levantar. Após algumas trocas de informação e impropérios com os companheiros, próprios nas situações de azar, estes decidiram estendê-lo num tolde de pano que utilizavam para apanhar a azeitona e trazê-lo para a aldeia. O endireita observou-o rapidamente e ditou o seu veredito. Tem ossos partidos numa perna e nas costelas e possivelmente em mais algum sítio. O melhor era ir ao médico. Uns que sim outros que não, o que é certo é que o indireita mandou chamar os quatro rapazes da padiola para o levarem ao hospital. Contrafeito, lá foi estendido na padiola e coberto de mantas. Carregado pelos maqueiros, também pouco satisfeitos, lá se puseram a caminho dos 8 km, descendo a pique até ao rio e ...

Traição

- "Então, Calhona, lá traíste a nação!". Dizia em ar de reprovação e, ao mesmo tempo, zombeteiro o Carica.  - "Foi obrigado, meu padrinho, foi mesmo contra a vontade! Eles eram muitos e apanharam-me". desculpava-se o Calhona. No período do entrudo na aldeia, os moradores do cimo de vila e o baixo de vila passavam a ser considerados duas nações desavindas... A fronteira era a rua principal que a cortava a meio. Para além das ameaças e altercações entre os moradores desavindos, em horas mais renhidas havia tiros de caçadeira para o ar, mas na direção dos inimigos... O Calhona, à noitinha, como se lhe acabou o inseparável tabaco de enrolar, fez uma sorrateira incursão à taberna localizada no fundo de vila par o comprar. Mas foi detetado por ativistas inimigos, que o apanharam, interrogaram e o obrigaram a pegar numa caçadeira e disparar na direção do cimo de vila. A ação foi testemunhada e difundida por toda a aldeia como mais um triunfo dos da aldei...

Barroca

Há uma tendência malvada, em muitas culturas, de nos rirmos das desgraças alheias. Sabemos que não há, geralmente, má intenção. Por isso, essa tendência é tolerada e passamos adiante. E, neste caso, é isso que pedimos. Que tolerem a malvadez em revelar o que aconteceu numa tarde de sol, nos finais de Julho, quando o Joaquim Poça e sua mulher Alípia regavam a sua parcela "assocalcada"de terreno hortícola nas encostas da Barroca. Ambos estavam bastante avançados na idade e as forças eram escassas. O Joaquim, com o seu cabaço, um balde de zinco na ponta de um cabo de castanho, descarregava a água do poço no rego de regar a pé. A gravidade encarregava-se de levar a água até à Alípia. Com a sua sachola, ia guiando e doseando a água para as diversas culturas espalhadas pelos calços pegados à barroca já seca. Alípia desesperava. A água que lhe chegava era escassa e irregular. Ia gritando para o Joaquim lá na ponta do longo calço de terreno para mandar mais água,...

Gerir crises e sobreviver

Seis Principais Linhas de Orientação - As Minhas Para continuarmos a existir, estamos condenados a cuidar da "terra" onde vivemos. Depois de milhares de anos a competir e colaborar, fomos modificando o meio, moldando-o às nossas necessidades e caprichos. De caçadores e recoletores errantes, passamos a povoados de agricultores, e seguiram-se as cidades, vilas e aldeias com casas, carros, supermercados, hospitais, escolas... E estamos aí, pensando e agindo, à procura das soluções para os problemas que se nos deparam. Não é novidade para ninguém, que há tempos melhores e piores, mais calmos ou agitados, mais esperançosos ou deprimentes. Mas é sempre bom pensar e agir tomando como orientação bases sólidas para realizar os desejos ou visões pessoais e coletivas. Não vamos, agora, pensar em termos de desígnios para a terra ou planeta. Há muita gente a pensar e falar sobre  assunto. Pensamos mais em termos locais e interroguemo-nos sobre quais os eixos fundamentais para l...

Conversa fiada

Incluir : Basicamente eu sou um meme que fica bem em qualquer lugar e sobre qualquer tema. Nasci e sobressaí à tua custa, eu sei. Sou mais do mundo da gente fina e educada. A gente vulgar faz à tua  moda, com as tuas manias de etiquetar tudo, competir até cair para o lado, comparar, arrumar e deitar fora quem sai das normas. Mas eu vou fazendo o meu caminho... Excluir : Falam, falam... mas a seleção e a competição acaba por se impor. Onde é que já se viu essa modernice de por tudo no mesmo saco? Cooperação e mais cooperação... Falinhas mansas de ser bem-vindo em toda a parte. Acham que classificar, discriminar, avaliar e valorizar os melhores e arredar os piores é uma injustiça. Onde íamos parar se seguíssemos essa conversa! Incluir : Eu sei que os ventos são a teu favor e não poderemos louvar de igual modo a cigarra e a formiga, mas ser diferente é bom! Além disso, ninguém tem o dom de escolher onde nasce e quem e como o educam... A sociedade impõe-se ao indivíduo e vai...

Mulher Zelada

A boda decorreu como tinha de ser. Histórias, gargalhadas mais ou menos contidas, umas garfadas e uns copos, despiques, perguntas e respostas no ar. Exibiram-se os fatos, os vestidos, as gravatas e os sapatos. A discrição dos olhares, os acenos comedidos, as "saúdes" aos noivos foram entremeando os olhares soslaios, os sorrisos à medida e os gracejos educados. No declinar da festa, Virgolino e Suzana saíram radiantes da Quinta do Souto e foram à sua vida, sob os olhares de cumplicidade dos familiares e amigos. Estes ficaram mais um pouco a arrematar as conversas e a desatar os nós das encrencas que tinham saltado na mesa atafulhada de louça e restos de comida. No dia seguinte, os ritmos entraram novamente nos seus eixos. Vigiavam-se as vinhas, regavam-se as hortas, cuidavam-se os animais, erguia-se o pensamento ao criador ao toque das ave-marias e das trindades. Mas para Virgolino, o mundo saltara dos eixos. Logo cedo viram-no, nervoso e afoguea...

"Viva Sé"

O barulho de pedras a bater na lâmina da enxada galgava por toda a Aveleira. Campos de cultivo de hortícolas várias, abençoados por água abundante de poços espalhados pelos lameiros, estavam agora impacientes para receber as sementeiras. Rapazes, sem força para a enxada, rapavam com sacholas as ervas e o estrume espalhado no terreno para o corte aberto pelos homens e calcavam a rapadura com os pés. Depois, em perfeita sintonia, os homens viravam a terra com as suas enxadas, cobrindo as rapanças e rasgando novo valado na terra ainda húmida, para onde os rapazes voltavam a rapar. Acabada a batida das pedras, que se repetia várias vezes no dia e pelos diversos grupos dispersos que cavavam os vários lameiros, subia o som uníssono das vozes dos cavadores: - "VIVA SÉÉÉ...". Era a altura de fazer uma rodada da tarola ou garrafão para saciar a sede, acicatada pelo esforço do trabalho e o calor do sol de Maio. Era o tempo das Bessadas. O cuco já tinha voltado e dado sinal...

As imagens - Ver e saber.

Nuvens, montanhas, casas, plantas, muros. É um dia claro, algures no norte de Portugal, em Outubro de 2016. Mas sabemos que, nesse dia de domingo, se vindimava um pouco por toda a parte. Não nesta nova vinha, mas numa outra bem perto dela. Entretanto, o Douro corria lento e dizia adeus ao Peso da Régua e às suas pontes. Pontes que passamos à espera de encontrar do lado de lá o que não temos do lado de cá. Vemos a geometria dos triângulos, arcos e os pilares, mas sabemos que todo o peso acaba por se infiltrar no solo. A maravilha da evolução sintetizada na roda. Um rodado singelo, suficiente para passar à frente do tempo e cavalgar o espaço. Por detrás, a roda do eventual plano inclinado do futuro de borracha. O rio Douro obsevado das Meadas. A dureza da paisagem Vemos os rasgos humanos na terra indefesa e sabemos que lá ao longe alguém chora ou alguém ri. Uns por ver os outros e outros sem ser por nada. Cá em cima o vento traz e leva. Com a sua força vem a energ...

É o fim do mundo?

Que o mundo terá fim, ou seja, que ele sofrerá alterações profundas que irão varrer a espécie humana da face da terra, não é novidade para nós. Faltará saber como e quando. Seremos banidos do planeta lentamente ou sem tempo para pestanejar? Haverá uma lenta agonia ou nem daremos por nada? Será numa sexta feira 13 ou ao longo dum taciturno mês de Maio? Chovia e trovejava se Deus a dava. "Mãe, isto é o fim do mundo?" tremelicava o Zezinho agarrado ao xaile da mãe. Esta protegia o seu novo rebento que transportava ao colo enquanto o Zezinho tentava a todo o custo acompanhar o seu passo rápido, a caminho de casa, fugindo à trovoada implacável e  destemperada que se abatera repentinamente sobre a aldeia indefesa. Zezinho estava avisado que viria o fim do mundo com tempestades e trovões do outro mundo e aqueles pareciam mesmo os que guardava na sua fantasia. No meio do passo apressado, do barulho dos trovões do vento e da chuva, Zezinho recebe a resposta tranquilizadora da s...

A Russa

A vida rural exige uma comunhão estreita do homem com a terra e os animais. Foram estes que guindaram em parte a nossa espécie àquilo que hoje somos. Não vale a pena repetir o óbvio, mas, por vezes, esquecemos o quanto devemos materialmente e espiritualmente aos seres que nos rodeiam. Eles alimentam-nos, transportam-nos, dedicam-nos momentos inesquecíveis a troco de quase nada. A Russa era a companhia inseparável do Tavares. Sempre a farejar os seus bolsos do casaco, que usava meio vestido sobre o seu ombro esquerdo e de onde saiam, de vez em quando, umas côdeas de pão de milho. Lá ia, atrás do dono ou transportando-o  no dorso, para todo o lado. Nas quintas feiras rumavam à feira da cidade, percorrendo os 9 Km descendo e subindo encostas. No seu passo sempre igual, chegavam pelo meio da manhã. A Russa era entregue no lugar da Ponte, à entrada da cidade, ao seu amigo que, além da taberna para saciar a fome e sede dos feirantes, também tinha uma loja para acomodar os animais. ...

Resiliente

"Sempre gostava de saber donde lhe vem tanta força!" Era o desabafo do Santos quando falava do seu amigo Augustino. E era mesmo um resistente. Um pouco já entrado na idade, aguentava a adversidade como um sorriso, um jogo a vencer, uma questão a arrumar e passar a diante  Um dia menos mau transformava-se num assunto encerrado, porque o melhor estava para chegar. Uma consulta ou exame médico, umas análises, eram rotinas para levar com descontração; os almoços e jantares para saborear e registar com bonomia e satisfação. Os comprimidos eram uma obrigação, mas a boa mesa e a conversa uma devoção. "Ele dá sempre a volta por cima". Continuava o Santos a contar mais uns episódios de vida do seu amigo. Ele encontrava o lado menos sombrio, o encanto mais escondido e a virtualidade mais insuspeita em todas as ações. Vencer ou tornear as dificuldades com agilidade, era considerado o seu dever. Com os pés assentes na terra, ia materializando os seus sonhos, acreditando no...