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A Russa

A vida rural exige uma comunhão estreita do homem com a terra e os animais. Foram estes que guindaram em parte a nossa espécie àquilo que hoje somos. Não vale a pena repetir o óbvio, mas, por vezes, esquecemos o quanto devemos materialmente e espiritualmente aos seres que nos rodeiam. Eles alimentam-nos, transportam-nos, dedicam-nos momentos inesquecíveis a troco de quase nada.

A Russa era a companhia inseparável do Tavares. Sempre a farejar os seus bolsos do casaco, que usava meio vestido sobre o seu ombro esquerdo e de onde saiam, de vez em quando, umas côdeas de pão de milho. Lá ia, atrás do dono ou transportando-o  no dorso, para todo o lado. Nas quintas feiras rumavam à feira da cidade, percorrendo os 9 Km descendo e subindo encostas. No seu passo sempre igual, chegavam pelo meio da manhã. A Russa era entregue no lugar da Ponte, à entrada da cidade, ao seu amigo que, além da taberna para saciar a fome e sede dos feirantes, também tinha uma loja para acomodar os animais. Pela noite, regressavam a casa. Depois de rematar mais um copito para o caminho, montava-se conforme podia na sua Russa e deixava que o tempo corresse. Ela faria sem sobressaltos o caminho de volta.

Mas a Russa era uma companheira dedicada. Não permitia que mais ninguém a não ser o Tavares andasse no seu dorso com ou sem albarda. Os que tentavam, ela se encarregava de os derrubar pinoteando e rodopiando até os ver estatelados no chão.

O Tavares era músico de banda. Tentava, com pouco sucesso, manter os mais velhos e incutir nos mais novos algumas regras para que a banda fosse dando conta do recado. Além da música, era essencial abster-se da bebida, pelo menos até tocarem para o esperado bailarico da tarde nas festas onde eram convidados. Depois, lá chegavam as mulheres com os burros, machos ou cavalos. Encontrados em último estado nas tabernas,  lá os içavam para os respetivos transportes agarrados aos seu instrumento, ouvindo as reprimendas... "não tens vergonha!!!", "olha-me essa figura!!!", e trazidos pela noite para a casa. A Russa lá vinha, no seu passo certo, pelos caminhos que conhecia de cor e depositava o Tavares â porta de casa, esperando a côdea de pão como recompensa merecida.

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