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Maldita Enxada

Feita a escola primária, os irmãos Jeremias e Alberto trabalhavam no campo, podando, escavando e redrando com a enxada, acartando uvas em cestos vindimos, varejando, colhendo a azeitona. Enfim, um ciclo de tarefas exigidos pelos vinhedos, olivais e matas circundantes à pequena aldeia onde foram criados. Ciclo esse, regulado pelas estações do ano e o saber acumulado pela experiência e transmitido de pais para filhos.

Jeremias e Alberto trabalhavam para um reduzido número de proprietários, já que de seu apenas tinham a casa modestamente mobilada de que as enxadas faziam parte. Pelo seus vinte e poucos anos, andavam a rotear com mais alguns homens para os lados das Antas. Aos pares, um com um ferro afiado aluía a terra e o outro com enxada ou pá virava a terra solta de modo criar uma vala de um metro de profundidade, tapando a vala anteriormente aberta, de modo a trazer à superfície a terra nova e mais produtiva e remetendo para a profundidade a já cansada.

O dia de trabalho estava a findar e notava-se nos modos destes dois inseparáveis irmãos que algo ia mudar e para melhor. Tinham recebido há alguns dias atrás a carta a informar que tinham trabalho na pujante Lisnave, lá bem longe ao pé de Lisboa. Esta era a oportunidade de uma vida, deixar a maldita enxada.

Dado o sinal de fim do dia de trabalho, com uma pequena reza iniciada pelo mais velho do grupo: "Louvado seja o Senhor" a que todos, incluindo o patrão, responderam: "Deus seja louvado", os irmãos Jeremias e Alberto agarram nas suas enxadas e pás, aproximam-se da beira do calço em que estavam a trabalhar, rodopiaram com elas e largaram-nas atirando-as pelo ar para bem longe. Voaram pela encosta abaixo e sabe Deus onde terão ido parar.

Despediram-se dos companheiros, correram para casa. Despediram-se dos pais, pegaram nos seus poucos haveres e partiram...



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