Avançar para o conteúdo principal

A desgraça


Entre muitos outros, temos fascínio pela desgraça, pela vida alheia e pela nossa imagem.

A história é apenas uma série de crimes e desgraças. (Voltaire)
"Uma desgraça nunca vem só...". A desgraça é coisa que não falta. Os meios para espiolhar a vida alheia são incontáveis e a nossa imagem infelizmente vai-se deteriorando com a idade, andando de mãos dadas com inveja e com  as desgraças.

A desgraça instalou-se. Como? Quando nos atrevemos a dominar o nosso espaço, a domesticá-lo a retalha-lo em países, condados, repúblicas, reinos, quarteirões e quintais. Quando mexemos em coisas que nunca devíamos ter mexido, na manipulação biológica, química, genética, molecular, atómica. Quando o nosso cérebro alargou e começou a recordar o que se passou e a calcular o que aí está para vir. Em consequência, os danos nas necessidades básicas são tantos que qualquer caridade ou misericórdia não passa de um ato de pura hipocrisia. "Coitadinhos destes desgraçados... só ficaram com a roupa do corpinho... Vamos lá fazer um jantar de beneficência para angariar fundos para estes desgraçados..."

CUIDADO: a inveja tem Facebook. (Augusto Branco)A vida alheia é a nossa mais enraizada coscuvilhice. Desde a coscuvilhice doméstica, feita nos lares, nos clubes, nas empresas, à coscuvilhice profissional das organizações, estados, organizações planetárias. "Olha lá, o fulano já não anda com cicrano... Ali há gato...". "Já fez o relatório da geolocalização dos membros da tribu Aser... Envie-mo, porque temos de limpar essa canalha... Estão a ter um comportamento um pouco hostil..."

"E como estamos de aspeto? Como estou de cara... Meu Deus, este espelho está contra mim...". No fundo de cada um de nós está um ser único que povoa esta terra num cintilar fugaz da vida do universo. O passado já lá vai, um futuro virá. O aqui e o agora, que avidamente tentamos agarrar do futuro, escapa-se furtivamente das mãos para o passado. Desgraçadamente, talvez...

Comentários

Mensagens populares deste blogue

Maldita Enxada

Feita a escola primária, os irmãos Jeremias e Alberto trabalhavam no campo, podando, escavando e redrando com a enxada, acartando uvas em cestos vindimos, varejando, colhendo a azeitona. Enfim, um ciclo de tarefas exigidos pelos vinhedos, olivais e matas circundantes à pequena aldeia onde foram criados. Ciclo esse, regulado pelas estações do ano e o saber acumulado pela experiência e transmitido de pais para filhos. Jeremias e Alberto trabalhavam para um reduzido número de proprietários, já que de seu apenas tinham a casa modestamente mobilada de que as enxadas faziam parte. Pelo seus vinte e poucos anos, andavam a rotear com mais alguns homens para os lados das Antas. Aos pares, um com um ferro afiado aluía a terra e o outro com enxada ou pá virava a terra solta de modo criar uma vala de um metro de profundidade, tapando a vala anteriormente aberta, de modo a trazer à superfície a terra nova e mais produtiva e remetendo para a profundidade a já cansada. O dia de trabalho estav...

Perdido

O meu alfa diz-me para sair do carro depois de parar na berma da A24 e eu, educadamente, saí. Ele partiu e eu fiquei. Ainda esbocei uma tentativa de correr atrás do carro, mas não merecia a pena. Perdido, sem cheiros conhecidos para me orientar foi andando, procurando água e comida. Nada, a não ser aquele ruído rouco de carros a passar e cheiro penetrante a algo queimado. Ladrar não era solução. Passa um dia, vem a noite, novo dia e continuo a minha busca. Já o sol ia desaparecendo quando um carro pára. Não é tão grande e bonito como aquele do meu antigo alfa a quem fora fiel. Abrem uma porta e eu, desconfiado espetei as orelhas, fixei o meu olhar e o meu olfato, apesar de confuso pelos fumos e gases dos carros. Algo me diz que são de confiança. Entro para a parte de trás do carro. Não teria uma outra oportunidade como aquela. Vamos, certamente, para uma nova casa e terei um ou mais novos alfa. Há horas de sorte, se bem que ainda era cedo para ficar alegre e tranquilo. O cheiro a ...

Traição

- "Então, Calhona, lá traíste a nação!". Dizia em ar de reprovação e, ao mesmo tempo, zombeteiro o Carica.  - "Foi obrigado, meu padrinho, foi mesmo contra a vontade! Eles eram muitos e apanharam-me". desculpava-se o Calhona. No período do entrudo na aldeia, os moradores do cimo de vila e o baixo de vila passavam a ser considerados duas nações desavindas... A fronteira era a rua principal que a cortava a meio. Para além das ameaças e altercações entre os moradores desavindos, em horas mais renhidas havia tiros de caçadeira para o ar, mas na direção dos inimigos... O Calhona, à noitinha, como se lhe acabou o inseparável tabaco de enrolar, fez uma sorrateira incursão à taberna localizada no fundo de vila par o comprar. Mas foi detetado por ativistas inimigos, que o apanharam, interrogaram e o obrigaram a pegar numa caçadeira e disparar na direção do cimo de vila. A ação foi testemunhada e difundida por toda a aldeia como mais um triunfo dos da aldei...