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Valor de posição



Noite cerrada de inverno. Chuva tocada a vento sul, batendo nas vidraças das janelas, viradas a sudoeste, duma casa pregada na encosta em frente ao Marão. A água escorre a custo pela janela. Alguma dela entra no quarto pelas gretas abertas no betume que fixa os vidros aos caixilhos, a necessitarem de "reforma".

Num quarto exíguo, uma criança, sentada na enxerga cheia de palha de centeio e assente no chão, percorre o seu livro escolar de aritmética nas páginas para aprender a contar e ao sistema de numeração decimal. Não sabia, naquela altura, que existiam outros sistemas de numeração. Tudo coisas criadas ou imaginadas por homens longínquos, talvez na Ásia Hindú, onde hoje é o Paquistão. Os árabes, perceberam a sua importância aprenderam-nas, melhoraram-nas e trouxeram-nas para a Europa.


Duma candeia de azeite irradia uma luz trémula. O nosso aluno da primária, lê e relê aqueles gatafunhos numéricos, misturados com mais outros gatafunhos, as letras. Percorre do um até ao nove, depois passa para o dez... Mas este zero aparece ali vindo do nada e lá está outra vez o um, agora promovido ou desterrado para a esquerda. Promovido, certamente, porque agora vale dez vezes mais do que sozinho...E depois o dois e o três, até ao nove. Ao chegar ao 99, o um lá salta mais para a esquerda, de dez para cem e lá se vão os "noves", voltando tudo a zeros.

A luz da candeia foi minguando com a falta de azeite (daquele mais reles e cheio de borras do fundo do cântaro em que era guardado). Cansado das tropelias do dia, atirou os livros para dentro de uma sacola de pano, onde está uma pedra de lousa já rachada. Nela escrevia e fazia as contas. Depois do visto da professora, sempre austera à espera dos erros, um cuspo e uma fralda ou manga da camisa apagava o pó branco resultante da fricção com um pequeno lápis de pedra.  Com um sopro, apaga a chama já mortiça da candeia, deita-se e adormece.

O novo dia aparece solarengo. O nossa criança levanta-se, lava-se coforme os gatos e veste-se apressadamente. Desce umas poucas escadas para uma cozinha de pedra, com a sacola ao ombro. Nela leva a sua ardósia e respectivo lápis e um livro de leitura e um de aritmética. Come rapidamente umas côdeas de pão de milho e uma sardinha assada na lareira rodeada de potes negros de ferro fundido. Alegre e bem disposto diz a sua mãe que cegava as folhas de caldo verde para os trabalhadores: "Mãe, descobri como se passa do nove para o dez, do dezanove para o vinte e por aí fora.... O um, o dois, o três e por aí fora passam a valer dez vezes mais quando mudam de sitio, da direita para a esquerda". Contente com a descoberta despede-se da mãe, que continua a sua tarefa.

Nas suas socas de madeira e cabedal, mete-se a caminho da escola. Este dia, ficou marcado na sua memória. O valor de uma determinada posição, ainda que em coisas aparentemente sem importância como os números, é para levar a sério. Eles, como a vida, vivem na nossa mente. Como num sistema de numeração, manter ou mudar de posição, faz parte das regras vida. Que a escola nos ajude a manter e mudar o que é preciso.

Comentários

Unknown disse…
ENQUANTO LI A TUA CRÓNICA LEMBREI-ME QUE EMBORA O ZERO NÃO VALER NADA, PARECE-ME QUE ISSO É RELATIVO, POIS COMO DIZES NOUTROS SISTEMAS NUMÉRICOS O ZERO É UM PERSONAGEM QUE ATÉ MERECE UMA COMENDA. ORA VÊ BEM O SEU VALOR QUANDO ARTICULADO COM A LINGUAGEM DE COMPUTADORES. O1OO1111O11OOOOO1O1OOO1OO111 .... VALE TUDO !!!
NÃO FALANDO DO 8 QUE QUANDO DEITADO, NÃO SEI SE POR ESTAR CANSADO, O SEU VALOR É INFINITO, O QUE NEM EU NEM NINGUEM ATÉ HOJE SABE MUITO BEM O QUE É ISSO E O SEU SIGNIFICADO !? COISAS DE MATEMÁTICOS... É O QUE É!
jvpinto disse…
As convenções, sejam matemáticas ou sociais são dominadoras. Temos criado, assim, os nossos próprios limites matemáticos e sociais. E tanto na matemática, como na vida social, a posição desses limites determina as nossas vidas...Vamos criando as nossas próprias armadilhas...

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