Avançar para o conteúdo principal

Memória

Não é vulgar um carpinteiro chamar-se Defry. Mas é mesmo esse o seu nome. Como qualquer profissional, amador da sua arte, acaricia as suas ferramentas com emoção e delicadeza. Usa-as com suavidade e destreza. Arruma-as e aconchega-as nos seus aposentos donde saem pela mão do seu dono, para fazer o seu trabalho.

É um prazer para um observador paciente, ver de um monte de tábuas surgir, lentamente, peças polidas e precisas, encaixes sólidos, deslizes suaves e no fim, uma obra acabada, não assinada, mas em que os olhares retilíneos e as mãos meticulosas do mestre deixaram a sua marca.

O Defry pode lembrar o passado. O cheiro adocicado da madeira cortada mistura-se com o ruído ritmado da serra a deslizar pelas suas nervuras. O variado visual das texturas e cores reflete uma luz mortiça, entrada a custo pelo pequeno janelo ao fundo da pequena, mas funcional, oficina.

Mas o Defry, orgulhoso da sua arte, que em várias décadas se tem vindo aprimorando e atualizando num pequeno espaço na parte antiga da sua cidade, guarda histórias e memórias, que em sua memória já não cabem. "Agora, veja lá que até me esqueci de ir à consulta da médica, essa do centro... Tenho de lá ir pedir-lhe desculpa... A minha memória está de todo... Levanto-me para ir ao outro lado da oficina e, quando lá chego, já me esqueci do que lá ia fazer..."


As pequenas memórias das pessoas e suas casas, oficinas, comércios, bairros, jardins, vão amarelecendo e estiolando à espera de quem as reviva e apanhe, para lhes dar um novo alento e escapem ao tufão do moderno esquecimento.

Comentários

Mensagens populares deste blogue

Maldita Enxada

Feita a escola primária, os irmãos Jeremias e Alberto trabalhavam no campo, podando, escavando e redrando com a enxada, acartando uvas em cestos vindimos, varejando, colhendo a azeitona. Enfim, um ciclo de tarefas exigidos pelos vinhedos, olivais e matas circundantes à pequena aldeia onde foram criados. Ciclo esse, regulado pelas estações do ano e o saber acumulado pela experiência e transmitido de pais para filhos. Jeremias e Alberto trabalhavam para um reduzido número de proprietários, já que de seu apenas tinham a casa modestamente mobilada de que as enxadas faziam parte. Pelo seus vinte e poucos anos, andavam a rotear com mais alguns homens para os lados das Antas. Aos pares, um com um ferro afiado aluía a terra e o outro com enxada ou pá virava a terra solta de modo criar uma vala de um metro de profundidade, tapando a vala anteriormente aberta, de modo a trazer à superfície a terra nova e mais produtiva e remetendo para a profundidade a já cansada. O dia de trabalho estav...

Perdido

O meu alfa diz-me para sair do carro depois de parar na berma da A24 e eu, educadamente, saí. Ele partiu e eu fiquei. Ainda esbocei uma tentativa de correr atrás do carro, mas não merecia a pena. Perdido, sem cheiros conhecidos para me orientar foi andando, procurando água e comida. Nada, a não ser aquele ruído rouco de carros a passar e cheiro penetrante a algo queimado. Ladrar não era solução. Passa um dia, vem a noite, novo dia e continuo a minha busca. Já o sol ia desaparecendo quando um carro pára. Não é tão grande e bonito como aquele do meu antigo alfa a quem fora fiel. Abrem uma porta e eu, desconfiado espetei as orelhas, fixei o meu olhar e o meu olfato, apesar de confuso pelos fumos e gases dos carros. Algo me diz que são de confiança. Entro para a parte de trás do carro. Não teria uma outra oportunidade como aquela. Vamos, certamente, para uma nova casa e terei um ou mais novos alfa. Há horas de sorte, se bem que ainda era cedo para ficar alegre e tranquilo. O cheiro a ...

Traição

- "Então, Calhona, lá traíste a nação!". Dizia em ar de reprovação e, ao mesmo tempo, zombeteiro o Carica.  - "Foi obrigado, meu padrinho, foi mesmo contra a vontade! Eles eram muitos e apanharam-me". desculpava-se o Calhona. No período do entrudo na aldeia, os moradores do cimo de vila e o baixo de vila passavam a ser considerados duas nações desavindas... A fronteira era a rua principal que a cortava a meio. Para além das ameaças e altercações entre os moradores desavindos, em horas mais renhidas havia tiros de caçadeira para o ar, mas na direção dos inimigos... O Calhona, à noitinha, como se lhe acabou o inseparável tabaco de enrolar, fez uma sorrateira incursão à taberna localizada no fundo de vila par o comprar. Mas foi detetado por ativistas inimigos, que o apanharam, interrogaram e o obrigaram a pegar numa caçadeira e disparar na direção do cimo de vila. A ação foi testemunhada e difundida por toda a aldeia como mais um triunfo dos da aldei...