Avançar para o conteúdo principal

É o fim do mundo?

Que o mundo terá fim, ou seja, que ele sofrerá alterações profundas que irão varrer a espécie humana da face da terra, não é novidade para nós. Faltará saber como e quando. Seremos banidos do planeta lentamente ou sem tempo para pestanejar? Haverá uma lenta agonia ou nem daremos por nada? Será numa sexta feira 13 ou ao longo dum taciturno mês de Maio?

Chovia e trovejava se Deus a dava. "Mãe, isto é o fim do mundo?" tremelicava o Zezinho agarrado ao xaile da mãe. Esta protegia o seu novo rebento que transportava ao colo enquanto o Zezinho tentava a todo o custo acompanhar o seu passo rápido, a caminho de casa, fugindo à trovoada implacável e  destemperada que se abatera repentinamente sobre a aldeia indefesa.

Zezinho estava avisado que viria o fim do mundo com tempestades e trovões do outro mundo e aqueles pareciam mesmo os que guardava na sua fantasia. No meio do passo apressado, do barulho dos trovões do vento e da chuva, Zezinho recebe a resposta tranquilizadora da sua mãe:

"Não penses nisso agora... A Santa Bárbara está a olhar por nós!!"

E estava. O mundo não acabou e tem-se mantido mais algum tempo. Até a Santa deixar de olhar por nós...

Comentários

Mensagens populares deste blogue

Maldita Enxada

Feita a escola primária, os irmãos Jeremias e Alberto trabalhavam no campo, podando, escavando e redrando com a enxada, acartando uvas em cestos vindimos, varejando, colhendo a azeitona. Enfim, um ciclo de tarefas exigidos pelos vinhedos, olivais e matas circundantes à pequena aldeia onde foram criados. Ciclo esse, regulado pelas estações do ano e o saber acumulado pela experiência e transmitido de pais para filhos. Jeremias e Alberto trabalhavam para um reduzido número de proprietários, já que de seu apenas tinham a casa modestamente mobilada de que as enxadas faziam parte. Pelo seus vinte e poucos anos, andavam a rotear com mais alguns homens para os lados das Antas. Aos pares, um com um ferro afiado aluía a terra e o outro com enxada ou pá virava a terra solta de modo criar uma vala de um metro de profundidade, tapando a vala anteriormente aberta, de modo a trazer à superfície a terra nova e mais produtiva e remetendo para a profundidade a já cansada. O dia de trabalho estav...

Perdido

O meu alfa diz-me para sair do carro depois de parar na berma da A24 e eu, educadamente, saí. Ele partiu e eu fiquei. Ainda esbocei uma tentativa de correr atrás do carro, mas não merecia a pena. Perdido, sem cheiros conhecidos para me orientar foi andando, procurando água e comida. Nada, a não ser aquele ruído rouco de carros a passar e cheiro penetrante a algo queimado. Ladrar não era solução. Passa um dia, vem a noite, novo dia e continuo a minha busca. Já o sol ia desaparecendo quando um carro pára. Não é tão grande e bonito como aquele do meu antigo alfa a quem fora fiel. Abrem uma porta e eu, desconfiado espetei as orelhas, fixei o meu olhar e o meu olfato, apesar de confuso pelos fumos e gases dos carros. Algo me diz que são de confiança. Entro para a parte de trás do carro. Não teria uma outra oportunidade como aquela. Vamos, certamente, para uma nova casa e terei um ou mais novos alfa. Há horas de sorte, se bem que ainda era cedo para ficar alegre e tranquilo. O cheiro a ...

Traição

- "Então, Calhona, lá traíste a nação!". Dizia em ar de reprovação e, ao mesmo tempo, zombeteiro o Carica.  - "Foi obrigado, meu padrinho, foi mesmo contra a vontade! Eles eram muitos e apanharam-me". desculpava-se o Calhona. No período do entrudo na aldeia, os moradores do cimo de vila e o baixo de vila passavam a ser considerados duas nações desavindas... A fronteira era a rua principal que a cortava a meio. Para além das ameaças e altercações entre os moradores desavindos, em horas mais renhidas havia tiros de caçadeira para o ar, mas na direção dos inimigos... O Calhona, à noitinha, como se lhe acabou o inseparável tabaco de enrolar, fez uma sorrateira incursão à taberna localizada no fundo de vila par o comprar. Mas foi detetado por ativistas inimigos, que o apanharam, interrogaram e o obrigaram a pegar numa caçadeira e disparar na direção do cimo de vila. A ação foi testemunhada e difundida por toda a aldeia como mais um triunfo dos da aldei...