Avançar para o conteúdo principal

Vitorinos, Saramagos e Santos

Escritores e leitores escrevem e ou leem romances, ensaios, teses dos mais variados temas, desde a vida da pulga nos pelos do cão ao comportamento algo atípico do planeta HD 131399Ab, devido aos três sóis que tem de gravitar. De forma mais ou menos direta ou escondida, expõem as suas vidas (ou as dos seus personagens e objetos) escarrapachadas e sofridas ou venturosas. Geralmente, misturam a realidade e a ficção, atirando substantivos, adjetivos e verbos em catadupa, rodeando os personagens das virtudes e defeitos que todos partilhamos.
Por exemplo,  o Santos escreve e lê notícias com aquela entoação teatral de quem vive dentro dos acontecimentos, Depois, nos livros, envolve esses ou outros factos ditos reiais numa história inventada. O Vitorino no seu sotaque, encantava-nos com pequenas histórias recheadas de personagens e acontecimentos improváveis, alguns reais outros, possivelmente inventados. Saramago, com frieza e lucidez, recheava as suas histórias de factos reias e imaginários com as inquietudes sociais, que se renovam com sinais de alerta cada vez mais estridentes, face ao iminente abismo coletivo a que vamos chegando.
Os escritores procuram nas palavras o sentido da vida. Fazem o seu percurso e pedem às palavras para, de forma algo subtil, baralhar a cronologia, vaguear pelos factos supostamente ocorridos ou que irão acontecer.
Os Santos, os Vitorinos e os Saramagos desencadeiam emoções e sentimentos... Olham para trás e explicam o dia de hoje. Mas hoje, pensamos no amanhã...
Saramago diz: 
"O tempo vivido (e apenas ele, do ponto de vista humano, é tempo «de facto») apresenta-se unificado ao nosso entendimento, simultaneamente completo e em crescimento contínuo." 

http://www.peopletraining.com.br/2016/wp-content/uploads/2016/05/tempo.jpgVitorino diz;
 "A Tempo
A tempo entrei no tempo,
Sem tempo dele sairei:
Homem moderno,
Antigo serei.
Evito o inferno
Contra tempo, eterno
À paz que visei.
Com mais tempo
Terei tempo:
No fim dos tempos serei
Como quem se salva a tempo.
E, entretanto, durei."

Esperamos o que dirá o Santos...

Comentários

Unknown disse…
Escrita e abordagem,a escritores de muito nível,de quem, sabe o que diz,isto é cultura!

Mensagens populares deste blogue

Maldita Enxada

Feita a escola primária, os irmãos Jeremias e Alberto trabalhavam no campo, podando, escavando e redrando com a enxada, acartando uvas em cestos vindimos, varejando, colhendo a azeitona. Enfim, um ciclo de tarefas exigidos pelos vinhedos, olivais e matas circundantes à pequena aldeia onde foram criados. Ciclo esse, regulado pelas estações do ano e o saber acumulado pela experiência e transmitido de pais para filhos. Jeremias e Alberto trabalhavam para um reduzido número de proprietários, já que de seu apenas tinham a casa modestamente mobilada de que as enxadas faziam parte. Pelo seus vinte e poucos anos, andavam a rotear com mais alguns homens para os lados das Antas. Aos pares, um com um ferro afiado aluía a terra e o outro com enxada ou pá virava a terra solta de modo criar uma vala de um metro de profundidade, tapando a vala anteriormente aberta, de modo a trazer à superfície a terra nova e mais produtiva e remetendo para a profundidade a já cansada. O dia de trabalho estav...

Perdido

O meu alfa diz-me para sair do carro depois de parar na berma da A24 e eu, educadamente, saí. Ele partiu e eu fiquei. Ainda esbocei uma tentativa de correr atrás do carro, mas não merecia a pena. Perdido, sem cheiros conhecidos para me orientar foi andando, procurando água e comida. Nada, a não ser aquele ruído rouco de carros a passar e cheiro penetrante a algo queimado. Ladrar não era solução. Passa um dia, vem a noite, novo dia e continuo a minha busca. Já o sol ia desaparecendo quando um carro pára. Não é tão grande e bonito como aquele do meu antigo alfa a quem fora fiel. Abrem uma porta e eu, desconfiado espetei as orelhas, fixei o meu olhar e o meu olfato, apesar de confuso pelos fumos e gases dos carros. Algo me diz que são de confiança. Entro para a parte de trás do carro. Não teria uma outra oportunidade como aquela. Vamos, certamente, para uma nova casa e terei um ou mais novos alfa. Há horas de sorte, se bem que ainda era cedo para ficar alegre e tranquilo. O cheiro a ...

Traição

- "Então, Calhona, lá traíste a nação!". Dizia em ar de reprovação e, ao mesmo tempo, zombeteiro o Carica.  - "Foi obrigado, meu padrinho, foi mesmo contra a vontade! Eles eram muitos e apanharam-me". desculpava-se o Calhona. No período do entrudo na aldeia, os moradores do cimo de vila e o baixo de vila passavam a ser considerados duas nações desavindas... A fronteira era a rua principal que a cortava a meio. Para além das ameaças e altercações entre os moradores desavindos, em horas mais renhidas havia tiros de caçadeira para o ar, mas na direção dos inimigos... O Calhona, à noitinha, como se lhe acabou o inseparável tabaco de enrolar, fez uma sorrateira incursão à taberna localizada no fundo de vila par o comprar. Mas foi detetado por ativistas inimigos, que o apanharam, interrogaram e o obrigaram a pegar numa caçadeira e disparar na direção do cimo de vila. A ação foi testemunhada e difundida por toda a aldeia como mais um triunfo dos da aldei...