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Barroca

Há uma tendência malvada, em muitas culturas, de nos rirmos das desgraças alheias. Sabemos que não há, geralmente, má intenção. Por isso, essa tendência é tolerada e passamos adiante. E, neste caso, é isso que pedimos. Que tolerem a malvadez em revelar o que aconteceu numa tarde de sol, nos finais de Julho, quando o Joaquim Poça e sua mulher Alípia regavam a sua parcela "assocalcada"de terreno hortícola nas encostas da Barroca.

Ambos estavam bastante avançados na idade e as forças eram escassas. O Joaquim, com o seu cabaço, um balde de zinco na ponta de um cabo de castanho, descarregava a água do poço no rego de regar a pé. A gravidade encarregava-se de levar a água até à Alípia. Com a sua sachola, ia guiando e doseando a água para as diversas culturas espalhadas pelos calços pegados à barroca já seca. Alípia desesperava. A água que lhe chegava era escassa e irregular. Ia gritando para o Joaquim lá na ponta do longo calço de terreno para mandar mais água, mas nada feito.

O Catrafona passava pelo local e deteve-se a observar a cena. O Joaquim, lavado em suor, fazia os possíveis, mas pouca água saia daquela poça e a sua audição já não era a melhor. Mas distinguia alguns sons vindos da sua Alípia.

"Ó Catrafona, o que é que os estupor da minha mulher está para ali a gritar?" Perguntou o Joaquim que parou encostando-se ao cabo do cabaço.

"Oh, Joaquim! Ela está a pedir que lhe mandes mais água! Está tudo a morrer à sede!" Respondeu o Catrafona.

O Joaquim Poça agarrou-se de novo ao cabaço e gritou: "Raios partam esta mulher! Vou mandar-lhe tanta água que há de ir parar tudo à barroca..."

E, com a graça de Deus, as magras hortaliças lá foram vingando...

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