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Mulher Zelada

A boda decorreu como tinha de ser. Histórias, gargalhadas mais ou menos contidas, umas garfadas e uns copos, despiques, perguntas e respostas no ar. Exibiram-se os fatos, os vestidos, as gravatas e os sapatos. A discrição dos olhares, os acenos comedidos, as "saúdes" aos noivos foram entremeando os olhares soslaios, os sorrisos à medida e os gracejos educados.

No declinar da festa, Virgolino e Suzana saíram radiantes da Quinta do Souto e foram à sua vida, sob os olhares de cumplicidade dos familiares e amigos. Estes ficaram mais um pouco a arrematar as conversas e a desatar os nós das encrencas que tinham saltado na mesa atafulhada de louça e restos de comida.

No dia seguinte, os ritmos entraram novamente nos seus eixos. Vigiavam-se as vinhas, regavam-se as hortas, cuidavam-se os animais, erguia-se o pensamento ao criador ao toque das ave-marias e das trindades.

Mas para Virgolino, o mundo saltara dos eixos. Logo cedo viram-no, nervoso e afogueado, a sair da hospedaria da vila onde supostamente dormira com a sua recente esposa e dirigiu-se a casa do seu sogro. O seu pensamento deambulava pelo que sucedera na sua primeira noite com Suzana e na escolha das palavras com que iria enfrentar o senhor seu sogro.

"A sua filha não foi zelada, senhor meu sogro. Por isso pretendo devolver-lha." - Terá dito Virgolino num repente áspero, soltando as palavras como pedras atiradas nervosamente contra um muro. O sogro emudecido, voltou-lhe as costas e entrou em casa donde há pouco tinha saído ao ouvir as pancadas secas no portão da sua quinta.

Mas o tempo acabou por sarar feridas e amenizar os desencantos. E Virgolino acabou por remeter para o esquecimento a falta de zelo do senhor seu sogro e reentrou nos eixos e ritmos da vida.

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