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Semnome

De manhã cedo, pai e mãe saem para o trabalho deixando em casa os seus dois filhos. O mais novo alimentado a biberão; o mais velhinho já roendo côdeas de pão e bebendo malgas de caldo. Nasceram na década de sessenta, no meio de um turbilhão de privações. O sustento das famílias mais pobres fazia-se com muito trabalho e magras refeições. A entreajuda frente à adversidade era mais forte que nunca, mas a fome apertava e o pouco que havia, tinha de ser meticulosamente repartido.

O Laurido depois da sua malga de caldo, dava o biberão ao irmão, conforme os avisos da sua mãe. Porém, entre os avisos maternos e os avisos da sua barriga, acabava por ceder à tentação e, além da sua ração, ia surripiando porções do biberão do seu irmão. A sua consciência foi acomodando o seu incipiente sentimento de culpa. As desconfianças da sua mãe, que via o seu mais recente rebento sem medrar e definhar, gradualmente acabaram por descobrir o que estava a suceder. As repreensões foram implacáveis e a vergasta passou à ação. 

Mas tal como uma planta a quem falta a água e passa a fase da recuperação, por mais que Laréu tentasse regar o pé do seu rebento, ele adoeceu. O Semnome partiu no meio de lágrimas amargas de sua mãe e o olhar baço do Laurido que sobreviveu. Quando encurralados pela fome, a luta pela sobrevivência arrasa qualquer sentimento de culpa e passamos a ser todos vítimas das circunstâncias das quais não conhecemos os autores.

Será o "sistema" que comanda as nossas consciências e as nossas ações? Que fé nos poderá guiar? Que esperança nos restará? E que caridade nos poderá salvar?

Apetece gritar: "Algum Deus estará por ai?"

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