Dificilmente encontramos palavras para descrever e compreender o mundo em que vivemos. Deus terá colocado esta bola no meio do infinito. dotando-a de movimentos, muita água, terra e rochas, seres vivos pequenos, médios e grandes.Terá dado um primeiro sopro e daí em diante as coisas foram-se encadeando, divergindo e convergindo, acelerando e travando. desaparecendo e reaparecendo mais adiante.
Espalhada pelos vales, montes e colinas, resistindo ao frio. calor, dominando o meio que o rodeia aí está uma das espécies de seres vivos que, como uma praga, coopera e compete, esventra e remenda a casa que o sustém.
"Abre a janela e deixa-me entrar! Está aqui um calor de rachar e eu já não aguento mais!" gritava uma triste melga agarrada a custo ao vidro exterior da janela da casa do Góis. Este, impávido e sem contemplação, fazia que não ouvia e apreciava os pardais irrequietos tasquinhando os figos lampos acabados de amadurecer.
Olhou para o seu interior e remoeu o seu passado de sofrimento trepando as íngremes encostas da vida. A sacola de pano, rota, que levava para a escola; o comboio a vapor, fumacento e rude, que apanhava para ir para o liceu interno; as discussões, os risos e choros, as saudades, as despedidas e os reencontros dos colegas de trabalho. rotineiro, dos amigos e conhecidos, dos pais e irmãos...
"Abre a janela por favor!!!"
"Deixa-te estar, que estás bem... Aqui dentro ainda se está pior, com esta triste, amarga e doce vida de recordações..."
A melga cai devagar, desfalecida...
"Eu não te dizia para não forçares a entrada pelo vidro!?!"
E continuou a remoer o seu passado...
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