Avançar para o conteúdo principal

Gerir crises e sobreviver

Seis Principais Linhas de Orientação - As Minhas

Para continuarmos a existir, estamos condenados a cuidar da "terra" onde vivemos. Depois de milhares de anos a competir e colaborar, fomos modificando o meio, moldando-o às nossas necessidades e caprichos. De caçadores e recoletores errantes, passamos a povoados de agricultores, e seguiram-se as cidades, vilas e aldeias com casas, carros, supermercados, hospitais, escolas...

E estamos aí, pensando e agindo, à procura das soluções para os problemas que se nos deparam. Não é novidade para ninguém, que há tempos melhores e piores, mais calmos ou agitados, mais esperançosos ou deprimentes. Mas é sempre bom pensar e agir tomando como orientação bases sólidas para realizar os desejos ou visões pessoais e coletivas.
Não vamos, agora, pensar em termos de desígnios para a terra ou planeta. Há muita gente a pensar e falar sobre  assunto. Pensamos mais em termos locais e interroguemo-nos sobre quais os eixos fundamentais para lidar comas crises das pequenas cidades como Beja.

Há muitas variáveis em que podemos intervir para conter e superar ou tornear as crises, mas há que dar prioridades de umas sobre outras. E ai estão as seis que consideramos importantes:

1. As pessoas
Claro que há os cães, os gatos, os pombos, periquitos, mas a nossa ação deve ter essencialmente em conta as pessoas. De que vale uma casa bonita, se não for confortável; um jardim todo bem esquadrinhado e vedado se as pessoas não se sentem atraídas para o frequentar; de locais de trabalho cheios de tecnologia se os trabalhadores não gostam de lá estar e por aí adiante. Por isso, somos egoístas e isso, ajudou-nos a sobreviver. Mas somos igualmente cooperativos. E isso deu-nos força para conter as adversidades, resolver problemas e seguir em frente. Os grupos com diferentes ideias, opiniões são enriquecedores, desde que não descambem no sectarismo e maledicência. Em suma, é fundamental pensar e agir para as pessoas.
 
Nesta cidade, o clientelismo e radicalismo, seja do partido, dos grupos ou associações não deve prevalecer sobre o que as pessoas, como um todo, aspiram ou desejam. O que é que as pessoas aspiram e desejam? A forma simples de o saber é perguntar e ouvir as suas respostas. Ficar só à espera dos eventuais comentários, não chega. É preciso estudar mais e melhor o que as pessoas desejam e porquê.

2. Equipamentos e mobilidade
Basicamente os seres vivos respiram e movem-se. Procuram alimento, respiram e, os que se podem deslocar, sítios para estar e meios para se moverem. Por isso, tudo o que uma cidade e seus responsáveis possam fazer para proporcionar equipamentos (casas, serviços públicos, espaços comerciais e de lazer) bem como meios de mobilidade (ruas e passeios, caminhos, estradas) será um passo para superar a estagnação e aumentar a qualidade de vida. O que são bons equipamentos? Aqueles cujas caraterísticas objetivas cumpram os padrões de qualidade definidos pelos estudos existentes, acessíveis a todos e subjetivamente considerados como tal pelos que os usufruem. Não são admissíveis numa cidade moderna unidades ou zonas degradadas em que os cidadãos (direta ou indiretamente) não cuidem dos seus espaços e do espaço público e, muito menos, que o degradem, sujem ou estraguem. Igualmente, a construção ou requalificação de espaços públicos deve primar pela funcionalidade e qualidade.  Os serviços públicos deverão dar o exemplo.

E nesta cidade há demasiados exemplos de coisas a corrigir. Fazer passeios regulares e espaços verdes, mesmo verdes e não carregados de pedra e tijolo com muita geometrização Qualificar equipamentos urbanos e ruas em mau estado. Arranjar soluções com os moradores no caso de  construções em degradação evidente nas zonas mais antigas da cidade e em bairros ditos "problemáticos"

3. Saúde, Educação e Segurança social
Se há aquisições civilizacionais de que nos podemos orgulhar, duas das mais importantes serão a qualidade e generalidade dos cuidados de saúde e produção e transmissão do conhecimento. Por isso, o acesso a estes recursos deve ser garantido, da melhor forma possível, para todos. Os responsáveis locais devem assegurar que os meios são quantitativamente suficientes e controlar a sua qualidade segundo os padrões estabelecidos pelas entidades nacionais e internacionais. Não é necessário que os serviços sejam grandes, que tenham imenso dinheiro, ou que tenham imensas pessoas e maquinaria. Basta estarem dimensionados para as necessidades e primarem pela qualidade das pessoas que os servem e pelo bom funcionamento dos recursos técnicos que devam possuir.

Seria importante ouvir mais os responsáveis destes serviços na comunicação social local de forma a aprofundar a cooperação e confiança dos utilizadores destes serviços. As boas práticas e os bons profissionais que servem estes serviços devem ser "acarinhados" pela cidade. Na saúde, se o setor público não avançar com melhorias, incentivar o setor privado a investir nesta zona. Na educação, melhorar a pro-atividade das escolas superiores que na informação e acompanhamento das transformações que se observam na periferia agrícola da cidade e inovar em áreas de conhecimento de interesse para a região. Na segurança social, incrementar a transversalidade dos serviços através da rede social, otimizando a intervenção nos setores da infância e idosos.
 
4. Artes e Lazer
A vida cultural das cidades é também um elemento determinante da qualidade de vida dos seus habitantes. A variedade das atividades culturais é imensa. Tanto as tradicionais como as modernas formas de criação e fruição da cultura contribuem para o bom clima e sanidade da comunidade.
A música é um elemento importante para esta cidade, pelo seu canto e pelos seus artistas reconhecidos na música dita ligeira. Mas há outras formas de arte também a destacar, algumas em processo de esquecimento seja a olaria e pintura.

Seria importante que se procurasse incentivar as manifestações culturais otimizando a vertente da criação cultural em detrimento das realizações mais ou menos episódicas de "festas" profissionais só para mera exibição. Seria também importante dar maiores e melhores oportunidades aos artistas bejenses de se apresentarem na sua terra e fortalecer paralelamente outras atividades artesanais. Na área do lazer melhorar a divulgação da oferta turística ligada ao mundo rural  e complementá-la com identificação e valorização de outros atrativos da cidade e com a riqueza da diversidade ambiental em que a cidade se insere.

5. Economia e Bem-estar
Duas das traves mestras da vida em sociedade são uma economia saudável e o bem-estar. Pode-se atamancar ou disfarçar a situação, mas números são números e uma economia saudável tanto familiar como das empresas e serviços públicos dão um desafogo e segurança para enfrentar o dia-a-dia com mais qualidade e bem-estar. Estas traves mestras não são coisas estáticas, mas um processo de ajustamento quotidiano aos desafios que se vão encontrando e, acima de tudo, prevendo e precavendo. Não se tem uma economia sólida e bem-estar assegurado só porque se quer ou se deseja, mas porque se conquista com mobilização do pensamento e ação. Para manter o equilíbrio destas duas, é essencial ter em consideração duas grandes condicionantes. Uma é de não formular níveis de aspiração demasiado ambiciosos nem demasiado comezinhos. No primeiro evita-se a frustração de não os conseguir e no segundo o aborrecimento de ter tudo garantido. Outra é grau de mobilização dos recursos ou meios que as pessoas têm para melhorar a economia e o bem-estar. Há meios mais ou menos disponíveis e mais ou menos eficazes para conseguir o que se pretende. Há um limiar que não convém ultrapassar, para não comprometer a sustentabilidade destas duas componentes (economia e bem-estar). Não menos importante é percber que o desenvolvimento não é necessariamente crescimento, ou seja, pode quase sempre melhora-se uma dada situação sem necessariamente aumentar. Muitas vezes "small is beautiful" (pequeno é bonito, ou o negócio é ser pequeno).

Seria importante, para grande parte das áreas económicas da cidade, ter metas realistas e meios mobilizáveis para o efeito. Com as condições atuais, Beja pode ser mais competitiva nas áreas do comércio e indústria assentes na agricultura (materiais para essa atividade, criação de unidades de aproveitamento de produtos agrícolas como o vinho e azeite e outras antigas e novas produções) e atividades a ela associadas como turismo. Associado a uma economia para o bem-estar das pessoas, incentivar as empresas ligadas ao turismo para oferecer viagens e estadias na cidade e arredores, melhorando as já existentes e estimulando novas atividades. Convinha dar atenção ao que as pessoas relatam das suas experiências (nomeadamente na internet) e corrigir o que seja de corrigir.

6. Capital, trabalho e conhecimento
Podemos ser de direita de esquerda ou do centro, mais socialista ou capitalista, mas uma coisa é certa, sem conjugar acertadamente o capital, o trabalho e o conhecimento não se progride. Cada euro conta. O capital que entra, circula e sai de Beja, não saberemos, mas seria bom ter algumas ideias. Os empreendedores bejenses, parte estará ligado à área agrícola, pecuária e parte em automóveis e imobiliário Uma coisa é certa; a agricultura nos tempos recentes, após certa estagnação tem vindo a mexer, fazendo fé no que se vê de terrenos cultivados à volta da cidade. A isso não será alheio a possibilidade proporcionada pelo Alqueva e o aumento das áreas irrigadas. O comércio local tradicional decaiu natural e acentuadamente e o "novo" comércio, estará estável. Os bejenses, na grande parte dos casos "prefere" comprar fora, seja por questões de preço ou presunção. A área industrial não alterou o seu baixo perfil nos tempos recentes. O mercado de trabalho aparentemente não tem sofrido alterações salvo o eventual aumento de trabalhadores imigrantes sazonais nas atividades agrícolas. Não fomos nem seremos nos tempos mais próximos um centro de inovação e conhecimento.

Seria importante melhorar e incrementar o investimento dos capitais públicos dirigidos à atratividade da cidade (basta os ver bons exemplos e copiar), à formação profissional em áreas interessantes para a região (produção agrícola e pecuária, maquinaria de apoio à agricultura, regadio, agro-indústria, turismo ambiental ligado ao património existente. Seria também importante que as entidades públicas com gabinetes de estudos e planeamento bem como o institutos superiores mostrassem a suas ideias e preocupações sobre a sustentabilidade do desenvolvimento que se desenha para a região.

Nota: Estas são algumas ideias, arrancadas com muita dose de boa vontade e intuição. Falta-lhes fundamentação científica e técnica, mas não se pode ter tudo.

Comentários

Mensagens populares deste blogue

Maldita Enxada

Feita a escola primária, os irmãos Jeremias e Alberto trabalhavam no campo, podando, escavando e redrando com a enxada, acartando uvas em cestos vindimos, varejando, colhendo a azeitona. Enfim, um ciclo de tarefas exigidos pelos vinhedos, olivais e matas circundantes à pequena aldeia onde foram criados. Ciclo esse, regulado pelas estações do ano e o saber acumulado pela experiência e transmitido de pais para filhos. Jeremias e Alberto trabalhavam para um reduzido número de proprietários, já que de seu apenas tinham a casa modestamente mobilada de que as enxadas faziam parte. Pelo seus vinte e poucos anos, andavam a rotear com mais alguns homens para os lados das Antas. Aos pares, um com um ferro afiado aluía a terra e o outro com enxada ou pá virava a terra solta de modo criar uma vala de um metro de profundidade, tapando a vala anteriormente aberta, de modo a trazer à superfície a terra nova e mais produtiva e remetendo para a profundidade a já cansada. O dia de trabalho estav...

Perdido

O meu alfa diz-me para sair do carro depois de parar na berma da A24 e eu, educadamente, saí. Ele partiu e eu fiquei. Ainda esbocei uma tentativa de correr atrás do carro, mas não merecia a pena. Perdido, sem cheiros conhecidos para me orientar foi andando, procurando água e comida. Nada, a não ser aquele ruído rouco de carros a passar e cheiro penetrante a algo queimado. Ladrar não era solução. Passa um dia, vem a noite, novo dia e continuo a minha busca. Já o sol ia desaparecendo quando um carro pára. Não é tão grande e bonito como aquele do meu antigo alfa a quem fora fiel. Abrem uma porta e eu, desconfiado espetei as orelhas, fixei o meu olhar e o meu olfato, apesar de confuso pelos fumos e gases dos carros. Algo me diz que são de confiança. Entro para a parte de trás do carro. Não teria uma outra oportunidade como aquela. Vamos, certamente, para uma nova casa e terei um ou mais novos alfa. Há horas de sorte, se bem que ainda era cedo para ficar alegre e tranquilo. O cheiro a ...

Traição

- "Então, Calhona, lá traíste a nação!". Dizia em ar de reprovação e, ao mesmo tempo, zombeteiro o Carica.  - "Foi obrigado, meu padrinho, foi mesmo contra a vontade! Eles eram muitos e apanharam-me". desculpava-se o Calhona. No período do entrudo na aldeia, os moradores do cimo de vila e o baixo de vila passavam a ser considerados duas nações desavindas... A fronteira era a rua principal que a cortava a meio. Para além das ameaças e altercações entre os moradores desavindos, em horas mais renhidas havia tiros de caçadeira para o ar, mas na direção dos inimigos... O Calhona, à noitinha, como se lhe acabou o inseparável tabaco de enrolar, fez uma sorrateira incursão à taberna localizada no fundo de vila par o comprar. Mas foi detetado por ativistas inimigos, que o apanharam, interrogaram e o obrigaram a pegar numa caçadeira e disparar na direção do cimo de vila. A ação foi testemunhada e difundida por toda a aldeia como mais um triunfo dos da aldei...