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"Viva Sé"


O barulho de pedras a bater na lâmina da enxada galgava por toda a Aveleira. Campos de cultivo de hortícolas várias, abençoados por água abundante de poços espalhados pelos lameiros, estavam agora impacientes para receber as sementeiras. Rapazes, sem força para a enxada, rapavam com sacholas as ervas e o estrume espalhado no terreno para o corte aberto pelos homens e calcavam a rapadura com os pés. Depois, em perfeita sintonia, os homens viravam a terra com as suas enxadas, cobrindo as rapanças e rasgando novo valado na terra ainda húmida, para onde os rapazes voltavam a rapar.

Acabada a batida das pedras, que se repetia várias vezes no dia e pelos diversos grupos dispersos que cavavam os vários lameiros, subia o som uníssono das vozes dos cavadores: - "VIVA SÉÉÉ...". Era a altura de fazer uma rodada da tarola ou garrafão para saciar a sede, acicatada pelo esforço do trabalho e o calor do sol de Maio.

Era o tempo das Bessadas. O cuco já tinha voltado e dado sinal da sua chegada. O frio e a geada já iam longe e os campos cobriam-se de verde. Os lameiros das Aveleiras eram, mais uma vez, o palco da dedicação e amor pela terra, revolvida e estrumada para uma nova sementeira.

Posto o sol, despegava-se do trabalho. O mais velho rematava: -"Louvado seja o Senhor Jesus Cristo". À resposta em coro, "Deus seja louvado", cada qual punha a sua enxada ou sachola às costas. Um qualquer enfiava a tarola, cabaça ou garrafão vazio no cabo da sua enxada. Desciam a encosta massados do trabalho, esquecendo o cansaço com as trivialidades da vida rural e iam-se repartindo pelas casas da aldeia agarrada à encosta.

 Amanhã seria um novo dia.

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