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Mensagens

Mulher Zelada

A boda decorreu como tinha de ser. Histórias, gargalhadas mais ou menos contidas, umas garfadas e uns copos, despiques, perguntas e respostas no ar. Exibiram-se os fatos, os vestidos, as gravatas e os sapatos. A discrição dos olhares, os acenos comedidos, as "saúdes" aos noivos foram entremeando os olhares soslaios, os sorrisos à medida e os gracejos educados. No declinar da festa, Virgolino e Suzana saíram radiantes da Quinta do Souto e foram à sua vida, sob os olhares de cumplicidade dos familiares e amigos. Estes ficaram mais um pouco a arrematar as conversas e a desatar os nós das encrencas que tinham saltado na mesa atafulhada de louça e restos de comida. No dia seguinte, os ritmos entraram novamente nos seus eixos. Vigiavam-se as vinhas, regavam-se as hortas, cuidavam-se os animais, erguia-se o pensamento ao criador ao toque das ave-marias e das trindades. Mas para Virgolino, o mundo saltara dos eixos. Logo cedo viram-no, nervoso e afoguea...

"Viva Sé"

O barulho de pedras a bater na lâmina da enxada galgava por toda a Aveleira. Campos de cultivo de hortícolas várias, abençoados por água abundante de poços espalhados pelos lameiros, estavam agora impacientes para receber as sementeiras. Rapazes, sem força para a enxada, rapavam com sacholas as ervas e o estrume espalhado no terreno para o corte aberto pelos homens e calcavam a rapadura com os pés. Depois, em perfeita sintonia, os homens viravam a terra com as suas enxadas, cobrindo as rapanças e rasgando novo valado na terra ainda húmida, para onde os rapazes voltavam a rapar. Acabada a batida das pedras, que se repetia várias vezes no dia e pelos diversos grupos dispersos que cavavam os vários lameiros, subia o som uníssono das vozes dos cavadores: - "VIVA SÉÉÉ...". Era a altura de fazer uma rodada da tarola ou garrafão para saciar a sede, acicatada pelo esforço do trabalho e o calor do sol de Maio. Era o tempo das Bessadas. O cuco já tinha voltado e dado sinal...

As imagens - Ver e saber.

Nuvens, montanhas, casas, plantas, muros. É um dia claro, algures no norte de Portugal, em Outubro de 2016. Mas sabemos que, nesse dia de domingo, se vindimava um pouco por toda a parte. Não nesta nova vinha, mas numa outra bem perto dela. Entretanto, o Douro corria lento e dizia adeus ao Peso da Régua e às suas pontes. Pontes que passamos à espera de encontrar do lado de lá o que não temos do lado de cá. Vemos a geometria dos triângulos, arcos e os pilares, mas sabemos que todo o peso acaba por se infiltrar no solo. A maravilha da evolução sintetizada na roda. Um rodado singelo, suficiente para passar à frente do tempo e cavalgar o espaço. Por detrás, a roda do eventual plano inclinado do futuro de borracha. O rio Douro obsevado das Meadas. A dureza da paisagem Vemos os rasgos humanos na terra indefesa e sabemos que lá ao longe alguém chora ou alguém ri. Uns por ver os outros e outros sem ser por nada. Cá em cima o vento traz e leva. Com a sua força vem a energ...

É o fim do mundo?

Que o mundo terá fim, ou seja, que ele sofrerá alterações profundas que irão varrer a espécie humana da face da terra, não é novidade para nós. Faltará saber como e quando. Seremos banidos do planeta lentamente ou sem tempo para pestanejar? Haverá uma lenta agonia ou nem daremos por nada? Será numa sexta feira 13 ou ao longo dum taciturno mês de Maio? Chovia e trovejava se Deus a dava. "Mãe, isto é o fim do mundo?" tremelicava o Zezinho agarrado ao xaile da mãe. Esta protegia o seu novo rebento que transportava ao colo enquanto o Zezinho tentava a todo o custo acompanhar o seu passo rápido, a caminho de casa, fugindo à trovoada implacável e  destemperada que se abatera repentinamente sobre a aldeia indefesa. Zezinho estava avisado que viria o fim do mundo com tempestades e trovões do outro mundo e aqueles pareciam mesmo os que guardava na sua fantasia. No meio do passo apressado, do barulho dos trovões do vento e da chuva, Zezinho recebe a resposta tranquilizadora da s...

A Russa

A vida rural exige uma comunhão estreita do homem com a terra e os animais. Foram estes que guindaram em parte a nossa espécie àquilo que hoje somos. Não vale a pena repetir o óbvio, mas, por vezes, esquecemos o quanto devemos materialmente e espiritualmente aos seres que nos rodeiam. Eles alimentam-nos, transportam-nos, dedicam-nos momentos inesquecíveis a troco de quase nada. A Russa era a companhia inseparável do Tavares. Sempre a farejar os seus bolsos do casaco, que usava meio vestido sobre o seu ombro esquerdo e de onde saiam, de vez em quando, umas côdeas de pão de milho. Lá ia, atrás do dono ou transportando-o  no dorso, para todo o lado. Nas quintas feiras rumavam à feira da cidade, percorrendo os 9 Km descendo e subindo encostas. No seu passo sempre igual, chegavam pelo meio da manhã. A Russa era entregue no lugar da Ponte, à entrada da cidade, ao seu amigo que, além da taberna para saciar a fome e sede dos feirantes, também tinha uma loja para acomodar os animais. ...

Resiliente

"Sempre gostava de saber donde lhe vem tanta força!" Era o desabafo do Santos quando falava do seu amigo Augustino. E era mesmo um resistente. Um pouco já entrado na idade, aguentava a adversidade como um sorriso, um jogo a vencer, uma questão a arrumar e passar a diante  Um dia menos mau transformava-se num assunto encerrado, porque o melhor estava para chegar. Uma consulta ou exame médico, umas análises, eram rotinas para levar com descontração; os almoços e jantares para saborear e registar com bonomia e satisfação. Os comprimidos eram uma obrigação, mas a boa mesa e a conversa uma devoção. "Ele dá sempre a volta por cima". Continuava o Santos a contar mais uns episódios de vida do seu amigo. Ele encontrava o lado menos sombrio, o encanto mais escondido e a virtualidade mais insuspeita em todas as ações. Vencer ou tornear as dificuldades com agilidade, era considerado o seu dever. Com os pés assentes na terra, ia materializando os seus sonhos, acreditando no...

Católica

Os mordomos da festa do padroeiro de Frielas queriam que a procissão desse ano, tão rico em santidade pela vinda do papa a Fátima, ficasse gravada na história da aldeia. Mas faltava uma peça essencial, a imagem do Senhor dos Paços. Já os seus antepassados tinham tido o mesmo problema,  legando essa catastrófica herança de não poderem juntar à Senhora das Dores o seu Filho e Senhor dos Passos. Claro que esta situação corroía-os de inveja, que ia crescendo anualmente, da aldeia vizinha de Pereiras. já que eles dispunham, num dos altares laterais da sua igreja, uma majestosa imagem do dito Senhor. Mas nesse ano não resistiram à tentação. Discussão acesa entre os mordomos acaba por decidir que, não havendo outra solução, se iria cometer um pequeno "desvio" rumo à santidade, tentando "deslocar" temporariamente o Senhor dos Passos de Pereiras, já que o pedido de empréstimo amigável seria improvável e um rebaixamento a que não se queriam sujeitar. Pela noite, na véspe...

Vampiros

Num recanto do largo corredor que liga a cozinha ao armazém, em frente aos dois largares onde se recolhe temporariamente a azeitona e se pisam as uvas nos seus devidos tempos, está a família reunida a almoçar umas batatas e bacalhau. A mesa, de duas largas e espessas tábuas de castanho, acompanhada de dois singelos bancos corridos. A um canto junto à porta, enxadas e outros apetrechos agrícolas pendurados em travessas agarradas às paredes. Numa copeira cavada na parede de pedra variada zelosamente acamadas, está o transístor, um sinal de modernidade intrigante que debita música, notícias, reclames e folhetins. O almoço decorria inquieto, com ordens e ameaças dos pais para os filhos mais pequenos que entremeavam a comida com irrequietudes. A irrequietude do Miguel ultrapassou a paciência do seu pai Justo. No meio da troca acesa de palavras e gestos desentendidos e agrestes, o Miguel chora e faz birra afastando-se da mesa e batendo o pé à comida. O transístor atento ao sucedido com...

A desgraça

Entre muitos outros, temos fascínio pela desgraça, pela vida alheia e pela nossa imagem. "Uma desgraça nunca vem só...". A desgraça é coisa que não falta. Os meios para espiolhar a vida alheia são incontáveis e a nossa imagem infelizmente vai-se deteriorando com a idade, andando de mãos dadas com inveja e com  as desgraças. A desgraça instalou-se. Como? Quando nos atrevemos a dominar o nosso espaço, a domesticá-lo a retalha-lo em países, condados, repúblicas, reinos, quarteirões e quintais. Quando mexemos em coisas que nunca devíamos ter mexido, na manipulação biológica, química, genética, molecular, atómica. Quando o nosso cérebro alargou e começou a recordar o que se passou e a calcular o que aí está para vir. Em consequência, os danos nas necessidades básicas são tantos que qualquer caridade ou misericórdia não passa de um ato de pura hipocrisia. "Coitadinhos destes desgraçados... só ficaram com a roupa do corpinho... Vamos lá fazer um jantar de beneficência...

Calazar

Ao longo da extensa subida da Costeira a caminho de Lamego, Maria sofria por dentro a amarga incerteza em conseguir a cura para o seu filho de dois anos. Com a criança num cesto de verga de castanho, que carregava à cabeça e um outro filho mais velho a caminhar a seu lado, ia nos limites da velocidade que as suas forças, o sol ardente e a inclinação da encosta permitiam. A criança, com a barriga inchada, tinha deixado de andar, esmorecera e refugiara-se num olhar mortiço depois de atacado por uma doença que se supunha ser o Calazar. A sua persistência já a tinham feito deslocar a diferentes locais, hospitais e médicos. Ao Pocinho onde existia um serviço especial para esta doença, à Régua. A médicos e também a bruxos e curandeiros das redondezas, porque um filho é um tesouro para quem se vai buscar ao fim do mundo tudo o que ele precisar. Uma médica nova, acabada de formar era hoje o seu destino. "Olhe senhora Maria. Há umas novas injecões que podem curar o seu filho...