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Vampiros

Num recanto do largo corredor que liga a cozinha ao armazém, em frente aos dois largares onde se recolhe temporariamente a azeitona e se pisam as uvas nos seus devidos tempos, está a família reunida a almoçar umas batatas e bacalhau. A mesa, de duas largas e espessas tábuas de castanho, acompanhada de dois singelos bancos corridos. A um canto junto à porta, enxadas e outros apetrechos agrícolas pendurados em travessas agarradas às paredes. Numa copeira cavada na parede de pedra variada zelosamente acamadas, está o transístor, um sinal de modernidade intrigante que debita música, notícias, reclames e folhetins.

O almoço decorria inquieto, com ordens e ameaças dos pais para os filhos mais pequenos que entremeavam a comida com irrequietudes.

A irrequietude do Miguel ultrapassou a paciência do seu pai Justo. No meio da troca acesa de palavras e gestos desentendidos e agrestes, o Miguel chora e faz birra afastando-se da mesa e batendo o pé à comida. O transístor atento ao sucedido começou a debitar Zeca Afonso - Os vampiros... "Eles comem tudo, eles comem tudo e não deixam nada...". Os que ficaram à mesa riam...e repetiam... "Olha que eles comem tudo... e tu ficas sem nada!!! Vês o que eles dizem?... Vais passar por debaixo da mesa!". O Miguelito, ostracizado e ridicularizado afavelmente pelo pai e irmãos, mas involuntariamente avisado pelo voz cativante de Zeca, dá alguns suspiros sincopados de resignação e volta à companhia da mesa familiar acabando, sereno, a sua refeição.

A canção dos Vampiros do Zeca terá passado, nessa altura, muitas poucas vezes na rádio até ser proibida por razões conhecidas. Esta terá sido para este lar a mais oportuna. E para o Miguelito, ela foi um aviso terno para a inconsequência da sua embirração e o valor do aconchego famíliar.

A canção já pouco se ouve, Mas os Vampiros Continuam Aí... CUIDADO!

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