O almoço decorria inquieto, com ordens e ameaças dos pais para os filhos mais pequenos que entremeavam a comida com irrequietudes.
A irrequietude do Miguel ultrapassou a paciência do seu pai Justo. No meio da troca acesa de palavras e gestos desentendidos e agrestes, o Miguel chora e faz birra afastando-se da mesa e batendo o pé à comida. O transístor atento ao sucedido começou a debitar Zeca Afonso - Os vampiros... "Eles comem tudo, eles comem tudo e não deixam nada...". Os que ficaram à mesa riam...e repetiam... "Olha que eles comem tudo... e tu ficas sem nada!!! Vês o que eles dizem?... Vais passar por debaixo da mesa!". O Miguelito, ostracizado e ridicularizado afavelmente pelo pai e irmãos, mas involuntariamente avisado pelo voz cativante de Zeca, dá alguns suspiros sincopados de resignação e volta à companhia da mesa familiar acabando, sereno, a sua refeição.
A canção dos Vampiros do Zeca terá passado, nessa altura, muitas poucas vezes na rádio até ser proibida por razões conhecidas. Esta terá sido para este lar a mais oportuna. E para o Miguelito, ela foi um aviso terno para a inconsequência da sua embirração e o valor do aconchego famíliar.
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