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Calazar

Ao longo da extensa subida da Costeira a caminho de Lamego, Maria sofria por dentro a amarga incerteza em conseguir a cura para o seu filho de dois anos. Com a criança num cesto de verga de castanho, que carregava à cabeça e um outro filho mais velho a caminhar a seu lado, ia nos limites da velocidade que as suas forças, o sol ardente e a inclinação da encosta permitiam. A criança, com a barriga inchada, tinha deixado de andar, esmorecera e refugiara-se num olhar mortiço depois de atacado por uma doença que se supunha ser o Calazar.

A sua persistência já a tinham feito deslocar a diferentes locais, hospitais e médicos. Ao Pocinho onde existia um serviço especial para esta doença, à Régua. A médicos e também a bruxos e curandeiros das redondezas, porque um filho é um tesouro para quem se vai buscar ao fim do mundo tudo o que ele precisar.

Uma médica nova, acabada de formar era hoje o seu destino. "Olhe senhora Maria. Há umas novas injecões que podem curar o seu filho. Mas não tenho a certeza. Como o que já se experimentou até aqui não adiantou, pode ser que desta a coisa se resolva. Tenho-as aqui e pode levá-las. Uma por dia". "Muito obrigada. A Sra. Bárbara lá me fará mais este favor de lhas dar". De volta a casa, pela tardinha, lá desceu a Costeira, para subir, ainda mais a pique, a encosta seguinte do Balsemão e Varosa até casa. No seu espírito renasceu mais uma vez a esperança e a pressa de ter o seu filho de novo com saúde.

As injeções foram sendo dadas e o suposto Calazar foi sendo vencido. O dito pimpolho arribou, voltou às côdeas de pão, malgas de caldo e batatas com cebola, com um ovo inteiro de presente nos dias de anos. A persistência venceu. Talvez uma promessa a algum santo da sua devoção os tenha ajudado...

O cesto de verga de castanho, que serviu durante esses atribulados meses de berço ambulante, às vezes pensando ser uma prenúncio de um caixão para um anjinho, respirou de alivio ao voltar às suas lides de transportar as refeições e outros haveres aos trabalhadores no campo.

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