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Mensagens

A desgraça

Entre muitos outros, temos fascínio pela desgraça, pela vida alheia e pela nossa imagem. "Uma desgraça nunca vem só...". A desgraça é coisa que não falta. Os meios para espiolhar a vida alheia são incontáveis e a nossa imagem infelizmente vai-se deteriorando com a idade, andando de mãos dadas com inveja e com  as desgraças. A desgraça instalou-se. Como? Quando nos atrevemos a dominar o nosso espaço, a domesticá-lo a retalha-lo em países, condados, repúblicas, reinos, quarteirões e quintais. Quando mexemos em coisas que nunca devíamos ter mexido, na manipulação biológica, química, genética, molecular, atómica. Quando o nosso cérebro alargou e começou a recordar o que se passou e a calcular o que aí está para vir. Em consequência, os danos nas necessidades básicas são tantos que qualquer caridade ou misericórdia não passa de um ato de pura hipocrisia. "Coitadinhos destes desgraçados... só ficaram com a roupa do corpinho... Vamos lá fazer um jantar de beneficência...

Calazar

Ao longo da extensa subida da Costeira a caminho de Lamego, Maria sofria por dentro a amarga incerteza em conseguir a cura para o seu filho de dois anos. Com a criança num cesto de verga de castanho, que carregava à cabeça e um outro filho mais velho a caminhar a seu lado, ia nos limites da velocidade que as suas forças, o sol ardente e a inclinação da encosta permitiam. A criança, com a barriga inchada, tinha deixado de andar, esmorecera e refugiara-se num olhar mortiço depois de atacado por uma doença que se supunha ser o Calazar. A sua persistência já a tinham feito deslocar a diferentes locais, hospitais e médicos. Ao Pocinho onde existia um serviço especial para esta doença, à Régua. A médicos e também a bruxos e curandeiros das redondezas, porque um filho é um tesouro para quem se vai buscar ao fim do mundo tudo o que ele precisar. Uma médica nova, acabada de formar era hoje o seu destino. "Olhe senhora Maria. Há umas novas injecões que podem curar o seu filho...

O Passado e o Futuro

  No dia de Nunca, por um acaso indeterminado, o Passado e o Futuro encontraram-se na taberna do Presente. Este acaso só era indeterminado para os misérrimos iletrados, mas não incultos, como muitos de nós. Pelo contrário era já aproximadamente prevista pelos intelectos dos iminentes einsteins, a pensar à velocidade da luz. Eles preenchiam folhas com fórmulas de variáveis seguras e conhecidas assalganhadas com umas hipóteses, condicionantes e suposições que, ao atingiram um certo limite, deixam as conclusões em incertezas e probabilidades, oscilando já entre o descrédito e a fé. O Passado vinha carregado de manchas negras e inchaço das pestes, sumido pela fome e cicatrizes de guerras. Não admira que gerasse certo desencanto e condescendência, sendo recebido com resignação. O Futuro vinha com um ar enigmático, a roçar uma angústia disfarçada e uma segurança forçadamente contida. Armado de néons dissimulados e micro botões quase invisíveis, dava para ver que a imprevisibilida...

Como te Compreendo Torga!

Há algo de especialmente fascinante em Miguel Torga. O vocabulário rico, cerrado e pitoresco; as expressões do quotidiano das pessoas das terras do Alto-Douro que são as suas raízes; as vivências algo atribuladas como emigrante, médico, poeta, escritor, preso político, viajante pela Europa, África e América, Ásia. O testemunho da sua experiência de vida, os seus pensamentos acutilantes, as suas ilusões, sofrimentos, mas sobretudo as suas personagens vivas em palavras a entrar-nos pelos olhos dentro com uma violência e crueza sem par. E a sua verticalidade de princípios e a sua facilidade em os reconhecer e aplicar na vida e nas personagens deverá ser uma inveja para todos. É isto que eu admiro; partilho raízes graníticas durienses, segmentos do percurso de vida, atitudes com os semelhantes, rudezas e fragilidades; falta-me a coragem para a aventura, naturalmente o seu imenso talento literário e profissional e, obviamente, a sua ímpar clareza e lucidez.   A Criação do Mu...

Amália

Os anos já pesavam nas pernas do avô Justiniano.  Por isso, desistira de subir a pé, por carreiros irregulares, a encosta íngreme para ir ao Lagedo. Preferia ir a cavalo na sua burra e fazer o caminho dando a volta pela povoação. Além disso, podia parar na principal venda da freguesia e ficar a par das informações importantes da aldeia e discutir um pouco do que lhe chegava pelo jornal da política nacional. Era a época dos que eram da "situação", dos que a execravam figadalmente e dos que simplesmente a desprezavam ou ignoravam. No Lagedo, já pela tardinha, abria ao tanque e dava de beber às cebolas, tomates, feijão e demais plantas mais sequiosas, espalhadas por alguns calços colados à encosta virados para as Meadas. Já pelo anoitecer regressava pausadamente a casa, pois a sua burra também aproveitava o tempo no sobreiral adjacente onde comia as iguarias de que gostava, o bracejo, as bolotas e as diversas ervas rasteiras e tenras que selecionava com cuidado. ...

À Mesa

O ambiente estava ligeiramente mais agitado que o costume. Mais gente, mais pedidos, mais reclamações, mais demoras, mais empregados em aceleração e desorientação. Era impossível não ouvir o bater dos talheres, dos pratos e dos copos, os risos, as impaciências, os suspiros, os murmúrios, os gritos esganiçados de crianças, as reclamações em surdina e um zoar contínuo da amalgama de sons de um restaurante qualquer. Um casal de jovens de fraca e delgada estatura, sentados frente a frente numa mesa. Depreendia-se que ela desfiava insinuações de infidelidade e pedidos de renovação de confiança, enquanto ele sobrepunha a sua inocência e gesticulava a impaciência de ser incompreendido.  Noutra mesa, uma mãe acompanhada de duas irmãs e seu filho de tenra idade. As tias tentavam refrear e alimentar a criança, ao mesmo tempo que se iam misturando olhares e frases condescendentes com garfadas de massa e chop suey. A criança, ora sentada na cadeira, ora rodando pelos colos delas, o...

À Espera de um Milagre

Quem visita a cidade de Beja não gostará das suas ruas estreitas, esconsas e sem passeios, as irregularidades das zonas comerciais e residenciais e um certo desconforto dos edifícios e monumentos. Olhará com admiração ou desdém os bairros orgulhosos de uma riqueza herdada, a par de outros a deixar transparecer que ela foi adquirida à pressa. Sentirá alguma resignação ao passar pelos amontoados de casas empurrados para a periferia, ou os enclausurados em ilhas no meio da cidade, em que a pobreza crónica ou a resultante da modernidade os estigmatiza com algum pudor. Ficarão na sua memória, como contrapartida, os largos horizontes, as estradas retilíneas, as torres, os pormenores curiosos e resistentes ao tempo e aos homens, as comidas cheirosas e singelas, as cálidas noites de verão e as amenidades primaveris e outonais. Mas também as pessoas, predominantemente idosas, que circulam pela cidade a custo, se sentam nas mesas junto às portas dos cafés e bares ou nos jardins, ou que esprei...

Golo do coelho

A manhã já ia longa e o jantar começava a surgir como imperativo necessário nos planos mentais do Toino Girão. Sentou-se num meroiço de pedras soltas de uma arribada do inverno passado e encostou a caçadeira de canos aramados à parede. Esperou que o Nestlé desse uma vista de olhos, guiado pelo seu faro, pelos calços do soito do porcas e fizesse saltar algum coelho mais preguiçoso e atrasado no regresso a sua toca. Como era habitual o Nestlé, quando pressentia a necessidade da intervenção do tiro da espingarda, dava as suas inquietantes ladradelas, ao mesmo tempo que acelerava na procura do rasto, até que, tendo o mágico do disfarce à vista, se lançava na sua perseguição. Nessa manhã, o láparo fora encontrado fora e longe da sua toca nuns seranganhos, no calço acima onde o Toino se sentara. Aí estava, na outra ponta do calço, o seu filho Miguelito, duns 7 anitos, que o acompanhava nas caçadas e o ajudava no transporte das poucas e esparsas perdizes e coelhos que trazia para casa. ...

O homem alfineteiro

A aldeia começou em ligeira ebulição. A notícia começou a deambular pelas ruelas e caminhos térreos. Estava para vir o cinema, ou melhor, umas imagens que se moviam numa parede lançadas de uma pequena e intensa luz a uns metros de distância. Os mais velhos conjeturavam que eram coisas que apareciam quando está para vir o fim do mundo. Os de meia idade sarcasticamente admitiam que estavam a avançar para o progresso. Os rapazes saltavam de contentes porque sempre queriam ver os bonecos saltando ou correndo na parede e, com sorte, talvez alguns caíssem e os pudessem apanhar. O dia, no verão, chegou. Foi anunciado previamente nos avisos finais da missa dominical, com a recomendação de trazerem os respetivos assentos para o adro da igreja bem depois do por do sol. O adro estava à pinha. Os mais velhos tomavam os seus assentos enquanto mantinham conversa sobre o andar dos vinhedos e das suas maleitas crónicas. Os de meia idade trocavam conversas e olhares, distendiam o corpo dorido das...

Olhos na tinta roriz

"Então Barcelino, estás a deixar as varas com três e quatro olhos? Olha que a tinta roriz no máximo dois olhos por vara é quanto basta", recrimina o Zé Sabão, um experiente podador. Mas Barcelino riposta: "Eu sei, mas o patrão precisa de dinheiro... E depois vem o pedrolho ou a aranha que lá come um ou outro rebento... Ou mesmo a geada que queima alguns.... Vão por mim, deixem lá mais um olho ou dois nas varas, porque o patrão precisa, porra!" E valada após valada lá iam, com mais ou menos frio e mais ou menos generosidade para com a natureza e com o patrão, cortando meticulosamente as varas do talhão da tinta roriz, naquele fria manhã do minguante do mês de Janeiro. Pouco tempo depois o Barcelino volta à carga, agora com ar mais recatado. "E aqui entre nós, há também mais uma coisa, Vocês não sabem que os americanos e ingleses têm umas máquinas no céu que vêm a forma como nós podamos as videiras e fazemos o cultivo da vinha para, depois, nos impingir...