Os anos já pesavam nas pernas do avô Justiniano. Por isso, desistira de subir a pé, por carreiros irregulares, a encosta íngreme para ir ao Lagedo. Preferia ir a cavalo na sua burra e fazer o caminho dando a volta pela povoação. Além disso, podia parar na principal venda da freguesia e ficar a par das informações importantes da aldeia e discutir um pouco do que lhe chegava pelo jornal da política nacional. Era a época dos que eram da "situação", dos que a execravam figadalmente e dos que simplesmente a desprezavam ou ignoravam.
No Lagedo, já pela tardinha, abria ao tanque e dava de beber às cebolas, tomates, feijão e demais plantas mais sequiosas, espalhadas por alguns calços colados à encosta virados para as Meadas. Já pelo anoitecer regressava pausadamente a casa, pois a sua burra também aproveitava o tempo no sobreiral adjacente onde comia as iguarias de que gostava, o bracejo, as bolotas e as diversas ervas rasteiras e tenras que selecionava com cuidado.
A paragem na venda do Plício era porém um momento de troca, por vezes acesa, de argumentos, de despique de quem conseguia apresentar de forma mais enfeitada ou acutilante argumentos a favor ou contra "a situação". A burra, alheia e estes obtusos parlatórios, aguardava pacientemente presa ao poste de madeira a uns bons 50 metros da venda. Era nele que estava amarrado o fio milagroso da antena do rádio da venda. A telefonia, uma novidade na terra, lá estava por trás do balcão no armário junto à mercearia, debitando as notícias e as modas do momento. A Sra. Dona Amália era a estrela principal da altura.
Para todos, era intrigante aquele paralelepípedo de madeira, com uma face de rede fina por onde saía o som e rodas e botões que regulavam a fala e música tão expedita e disponível. Claro que estava ligado ao fio suportado pelo poste; mas por onde entrava aquela gente faladora e cantora? O Manel Moirão descobriu o enigma. Claro que só podia ser a burra. Estando ela presa ao poste que segurava o fio ligado ao radio, era ela que cantava, talvez em surdina e o seu dote de artista era transmitido ao novo aparelho de rádio da venda.
A partir daí, o discreto animal do Justiniano, ainda sem um batismo que lhe fizesse jus aos seus dotes de artista, até aí desconhecidos, passou a ser carinhosamente a Amália.

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