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O homem alfineteiro

2A aldeia começou em ligeira ebulição. A notícia começou a deambular pelas ruelas e caminhos térreos. Estava para vir o cinema, ou melhor, umas imagens que se moviam numa parede lançadas de uma pequena e intensa luz a uns metros de distância. Os mais velhos conjeturavam que eram coisas que apareciam quando está para vir o fim do mundo. Os de meia idade sarcasticamente admitiam que estavam a avançar para o progresso. Os rapazes saltavam de contentes porque sempre queriam ver os bonecos saltando ou correndo na parede e, com sorte, talvez alguns caíssem e os pudessem apanhar.

O dia, no verão, chegou. Foi anunciado previamente nos avisos finais da missa dominical, com a recomendação de trazerem os respetivos assentos para o adro da igreja bem depois do por do sol. O adro estava à pinha. Os mais velhos tomavam os seus assentos enquanto mantinham conversa sobre o andar dos vinhedos e das suas maleitas crónicas. Os de meia idade trocavam conversas e olhares, distendiam o corpo dorido das ceifas e malhadas e arrefeciam-nos na brisa suave desse dia de verão. Os novatos, fora de si, ziguezagueavam por entre o zoar das conversas da plateia.

Arranca o motor do gerador e um retângulo luminoso aparece na parede da casa do sr. abade. As cadeiras, os olhares orientam-se para a parede. Os rapazes sentam-se no chão o mais próximo da parede. Surgem os primeiros riscos da fita que se vai desenrolando numa bobine e enrolando noutra. Logo surgem as tão esperadas imagens animadas por força de uma magia incompreensível.

Eram bonecos que corriam, saltavam feitos de balões de borracha sugada de uma árvore da floresta. Aparece o mau, um homem com alfinetes, que persegue e pica essas pessoas e animais de borracha inflada. Depois, os bonecos e principalmente um menino e menina heróis da história, conseguem enredar em borracha o homem balão alfineteiro e atiram-no para o desconhecido.

Os olhos fixos na parede animada tentavam acompanhar, com mais ou menos agitação corporal, o que se estava a passar. Os mais velhos, ficavam matutando que diabo de indrominice fazia mexer aqueles malvadas criaturas. Os de meia idade olhavam, ora com desdém e ora admiração, aquela mistura de figuras bizarras que nem nos seus sonhos mais incríveis teriam lugar. Os rapazes agitavam-se, gesticulavam e procuravam ver de onde vinha e para onde ia aquela imensa bonecada na parede.

Alguns tentavam em vão, junto à parede, apanhar algum daqueles bonecos que fugazmente passavam pela parede iluminada...

https://youtu.be/pxucYzKXXCI

 


Comentários

Unknown disse…
Tal e qual.foi neste contexto que vi o primeiro filme - o balão vermelho. Muito boa a narrativa!
jvpinto disse…
Tenho uma imagem muito remota de ver um filme, talvez este, com o título "Pregadeira de alfinetes". Será possível? Será este filme ou um muito parecido? Há muito muito tempo, para mim, mas o tempo é relativo...

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