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À Espera de um Milagre

Quem visita a cidade de Beja não gostará das suas ruas estreitas, esconsas e sem passeios, as irregularidades das zonas comerciais e residenciais e um certo desconforto dos edifícios e monumentos. Olhará com admiração ou desdém os bairros orgulhosos de uma riqueza herdada, a par de outros a deixar transparecer que ela foi adquirida à pressa. Sentirá alguma resignação ao passar pelos amontoados de casas empurrados para a periferia, ou os enclausurados em ilhas no meio da cidade, em que a pobreza crónica ou a resultante da modernidade os estigmatiza com algum pudor.

Ficarão na sua memória, como contrapartida, os largos horizontes, as estradas retilíneas, as torres, os pormenores curiosos e resistentes ao tempo e aos homens, as comidas cheirosas e singelas, as cálidas noites de verão e as amenidades primaveris e outonais. Mas também as pessoas, predominantemente idosas, que circulam pela cidade a custo, se sentam nas mesas junto às portas dos cafés e bares ou nos jardins, ou que espreitam das janelas cortinadas da suas casas. Também as crianças e jovens a entrar e a sair das escolas, agarrados às mochilas de livros e cadernos. E alguns outros, que garantem o funcionamento da cidade a quem nela vive e quem a visita.

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Ao cair da tarde da véspera do dia de consoada natalícia, um homem velho cruza, sozinho e com dificuldade, a calçada branca que ladeia o museu da cidade. Ao lado da porta de entrada já fechada, restos de colunas romanas empilhadas espreitam do nártex pelos arcos impávidos, possivelmente góticos. Isolada no seu pedestal a Rainha Dona Leonor observa serenamente este homem encasacado. O nosso velho dirige-se para pequeno chafariz. Carrega com dificuldade uma alavanca metálica procurando obter alguma água para beber. Tenta segunda e terceira vez, mas apenas uma irrisória quantidade de água aflora à ponta da bica apontada para a boca. Talvez um pouco desolado e sem matar a sede, retoma o seu caminho para os lados da Praça.

Os restos das colunas romanas observaram e mantiveram-se apáticas. A Rainha, presa em cima do seu pedestal, com o seu manto aberto pelos braços estendidos, continuou estática com o seu ar de quer ajudar mas sem poder. O seu rosto jovem e sereno, levemente virado para o chão, não seduziu ninguém, não chamou por ninguém, nem mesmo aquele insignificante chafariz de repuxo para dispensar água para beber. No seu pedestal pode ler-se, como recomendação para os transeuntes: "Bem aventurados os que usam de misericórdia, por que eles alcançarão misericórdia".

O pequeno e indefeso chafariz de repuxo, talvez cheio de misericórdia pelos tempos que leva a observar a Rainha, mas sem nada para dizer ou fazer, não se mexeu.




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