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Olhos na tinta roriz



"Então Barcelino, estás a deixar as varas com três e quatro olhos? Olha que a tinta roriz no máximo dois olhos por vara é quanto basta", recrimina o Zé Sabão, um experiente podador. Mas Barcelino riposta: "Eu sei, mas o patrão precisa de dinheiro... E depois vem o pedrolho ou a aranha que lá come um ou outro rebento... Ou mesmo a geada que queima alguns.... Vão por mim, deixem lá mais um olho ou dois nas varas, porque o patrão precisa, porra!" E valada após valada lá iam, com mais ou menos frio e mais ou menos generosidade para com a natureza e com o patrão, cortando meticulosamente as varas do talhão da tinta roriz, naquele fria manhã do minguante do mês de Janeiro.

Pouco tempo depois o Barcelino volta à carga, agora com ar mais recatado. "E aqui entre nós, há também mais uma coisa, Vocês não sabem que os americanos e ingleses têm umas máquinas no céu que vêm a forma como nós podamos as videiras e fazemos o cultivo da vinha para, depois, nos impingirem os herbicidas, pesticidas, sulfates e outras químicas... Assim, prego-lhes uma grande pêta... Realmente eu deixo três e quatro olhos, mas pelo menos dois deles ficam a fazer de conta! São olhos de videira espiões, que só servem para enganar essas máquinas celestes, para os outros darem uvas à vontade! E, assim, engano aqueles parolos americanos e dou maior lucro ao patrão!"

"Oh Barcelinho,.. Deus te dera o que te falta! Então não sabes que essas coisas de que tu falas é para eles apanharem peixe graúdo, nos computadores e telemóveis. Mas talvez possas ter razão, calhando; o peixe graúdo consegue escapar e, então, o peixe pequeno como nós é que é apanhado na rede!" Diz o Zé.

Com um ar meio incrédulo e em voz sussurrada o Barcelino acrescenta: "Às tantas, eles até estão, mesmo agora, a ouvir a nossa conversa e a analisar os olhos das videiras e lá se vai o meu truque da camuflagem dos olhos enganadores das varas da tinta roriz!"

"Deixa lá. Enquanto eles andarem entretidos como nós, não fazem coisas piores!"

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