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Como te Compreendo Torga!


Há algo de especialmente fascinante em Miguel Torga. O vocabulário rico, cerrado e pitoresco; as expressões do quotidiano das pessoas das terras do Alto-Douro que são as suas raízes; as vivências algo atribuladas como emigrante, médico, poeta, escritor, preso político, viajante pela Europa, África e América, Ásia. O testemunho da sua experiência de vida, os seus pensamentos acutilantes, as suas ilusões, sofrimentos, mas sobretudo as suas personagens vivas em palavras a entrar-nos pelos olhos dentro com uma violência e crueza sem par. E a sua verticalidade de princípios e a sua facilidade em os reconhecer e aplicar na vida e nas personagens deverá ser uma inveja para todos. É isto que eu admiro; partilho raízes graníticas durienses, segmentos do percurso de vida, atitudes com os semelhantes, rudezas e fragilidades; falta-me a coragem para a aventura, naturalmente o seu imenso talento literário e profissional e, obviamente, a sua ímpar clareza e lucidez.
 
A Criação do Mundo, que revisitei recentemente, demonstra como cada um de nós constrói, acumula conhecimentos e experiência, toma decisões que o tempo geralmente vai trucidando... Costumamos dizer em desespero mas abrindo uma ilusória nesga de esperança: "Ai se eu tivesse 15 anos e soubesse o  que sei hoje!...", "Ai se tivesse ficado quieto, em vez de me meter nesta alhada...!, "Ai se me tivesse calado, outro galo me cantaria!...". A vida é uma escolha de erros, fracassos e uns quantos tiros de sorte.  Este mundo ou este 3º calhau a contar do sol, cada vez mais retorcido e acre, moldado pela nossa inépcia e conspurcado pela nossa ganância, vai gemendo, tropeçando, pedindo há muito que o deixemos em paz. Ou seja, que acabemos rapidamente a sua criação e passemos ao 7 dia de descanso para ele se refazer das chagas que lhe vamos abrindo.

Por fim não resisto a copiar para aqui 3 dos imensos pensamentos do seus diários.
Sobre a solidão escreve: "Nas duas grandes horas da Vida — a nascer e a morrer — o homem bebe sozinho o seu cálix. No trajecto entre os dois pólos, acobardado pela maior consciência da espessura da bruma, arregimenta amigos e companheiros. Mas a sua unidade é ele. Mesmo que consiga ter à volta a maior multidão — vai só. Diário (1937)"

Sobre Portugal: "Em Portugal, as pessoas são imbecis ou por vocação, ou por coacção, ou por devoção." Diário (1946)

Sobre Normalidade: "Até que ponto é o artista um anormal, não sei nem quero saber. A anormalidade nunca me meteu medo, se é criadora. Agora até que ponto o homem normal combate o artista e o quer destruir, já me interessa. A normalidade causou-me sempre um grande pavor, exactamente porque é destruidora." Diário (1948) 

Os portugueses e não só, devem-lhe muito. Eu por mim tento pagar-lhe aqui a alguma da minha dívida.

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