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Golo do coelho

http://agriculturaemar.com/wp-content/uploads/2016/06/coelho-01.jpgA manhã já ia longa e o jantar começava a surgir como imperativo necessário nos planos mentais do Toino Girão. Sentou-se num meroiço de pedras soltas de uma arribada do inverno passado e encostou a caçadeira de canos aramados à parede. Esperou que o Nestlé desse uma vista de olhos, guiado pelo seu faro, pelos calços do soito do porcas e fizesse saltar algum coelho mais preguiçoso e atrasado no regresso a sua toca. Como era habitual o Nestlé, quando pressentia a necessidade da intervenção do tiro da espingarda, dava as suas inquietantes ladradelas, ao mesmo tempo que acelerava na procura do rasto, até que, tendo o mágico do disfarce à vista, se lançava na sua perseguição.

Nessa manhã, o láparo fora encontrado fora e longe da sua toca nuns seranganhos, no calço acima onde o Toino se sentara. Aí estava, na outra ponta do calço, o seu filho Miguelito, duns 7 anitos, que o acompanhava nas caçadas e o ajudava no transporte das poucas e esparsas perdizes e coelhos que trazia para casa. O Nestlé gritava esbaforido atrás do coelho com olhos esbugalhados e orelhas espetadas, saltitando e ziguezagueando pelo calço fora na direção do Miguelito. Este, incrédulo e inexperiente em tais situações, pôs-se em posição de guarda redes a meio do calço. Num rasgo de ingenuidade e arrojo, esperava agarrar, como uma bola de futebol, aquele bicho aparentemente aflito. O Toino ainda teve tempo de se levantar e agarrar a espingada, mas quando subiu ao calço de cima já o coelho e o cão na sua peugada iam fora do seu alcance.

Deitado no chão, o Miguelito tinha sido traído por esta bola de pelo. Levantou-se desalentado e contou o que se tinha passado. O coelho ziguezagueou para a borda do calço, ele atirou-se para esse lado para o apanhar e o malvado virou rapidamente para o lado da parede e passou-lhe, que nem um tiro, junto aos seus pés, perseguido a uns bons 20 metros pelo seu Nestlé, tão novo e ingénuo como ele!

"Oh pai! Se eu fosse como o Costa Pereira tinha apanhado aquele malandro!" Dizia o Miguelito limpando as calças remendadas no cu e nos joelhos..."

"Não sei filho.... Ele ia com o fogo no rabo, nem me deu tempo de o ver bem... Se o meu tio Russinho não o estoirar primeiro, da próxima vez ele não nos vais escapar... Vamos para casa que a tua mãe há-de dizer boas coisas... Chegamos tarde e de mãos a abanar!!!"



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