Avançar para o conteúdo principal

Mensagens

Tudo o que precisa para ser menos infeliz

Entrou na moda estar em crise. Desde o nível pessoal ao social. Há crises para todos os gostos. Crise de identidade, de crescimento; crise nas instituições, nos valores, no mundo em geral. Crise do passado, do tempo atual e do que há-de-vir. Na agricultura, no comércio e na indústria. Crises passageiras e crónicas. Muita gente diz que a crise é uma oportunidade, ou gerir a crise é, acima de tudo, uma situação normal. Anormal será não haver crises. No meio de tanta crise, que fazer? Para já ponha-se em alerta. Misture-se na multidão, não faça ondas; ou seja, não fique invisível, mas também não se mostre em demasia. Depois, não se prenda a nada que o prenda a si. Descarte o passado e o futuro entregue-o ao seu Deus, aquele que você inventa diariamente para espiar os seus pecados e a sua culpa. Mais cedo que tarde, o futuro será passado e o tempo acumulado é maior que o tempo que aí vem. Fuja do azar e aproxime-se da sorte. Como ter sorte? Saiba o suficiente e esqueça o su...

Persistência e experiência

Há histórias de várias pessoas proeminentes em diversos ramos da ciência e da arte, em que a escola onde se iniciaram não lhes pronunciava grande futuro. Algumas destas excepções dão que pensar. A escola produz bons alunos para a vida académica (alguns com ajuda duvidosa...), mas ver para além do imediato, persistir e acumular experiência perante os desafios fará toda a diferença. Imagine o professor com a cabeça a transbordar de matérias e métodos, procurando explicar a uma turma de alunos, onde está o jovem Einstein, como é que a geometria euclidiana funciona e onde as linhas paralelas jamais se cruzam. A mente de Einstein não estaria lá. Corria pelo espaço multidimensional e via imensas linhas paralelas num espaço hiperbólico e nenhuma num espaço esférico. Dadas as limitações do tempo e conhecimento da matéria, é melhor não nos metermos por aqui... deixemos isso para os matemáticos e físicos. Recuando no tempo, passamos por Beethoven sentado ao seu velho piano, a braços com sua ...

Ganhar e perder

Estamos longe da máxima "ganhar ou perder tudo é desporto". Claro que literalmente é mesmo isso. No desporto de competição além do empate, ou se perde ou se ganha. Perder não é agradável, mesmo que tenha sido uma derrota injusta... Ganhar é bom, mas com sabor amargo se for apenas moralmente. Infelizmente não pode haver vitórias sem derrotas, ganhos sem perdas ou ir na frente sem outros atrás. No campo ou ginásio as equipas movimentam-se para superar o adversário, enquanto nas bancadas ou à frente do televisor, a expetativa inicial vai gradualmente diminuindo em felicidade ou tristeza à medida que o desenlace do jogo se advinha. A competição é uma coisa estranha. Uns mais do que outros, não toleram perder. Não podem ver os outros ganhar, sem um misto de raiva e inveja. Ver ganhar o adversário pode ser tão doloroso que a frustração leva ao descarregar violento sobre não importa que ou quem. Ganhar ao rival é cúmulo da vingança. Todo o corpo vibra de felicid...

Palpites

Com a maior preocupação pelas audiências, os meios de comunicação social estudam ao pormenor o que mandam para nossas casas e o que lhes dá maior ganho. Desde o futebol à novela, da político à queda de um prédio, da morte no trabalho ou nas estradas, dos infernos aos paraísos. Há os provedores, os reguladores, os apresentadores, os comentadores e mais os "ores" que trabalham no produto que nos chega a casa. Aparece o passado que já pouca gente se lembra, o presente que se vai esquecer e o futuro incerto, que irá ser passado. Basicamente, procuram que vejamos e ouçamos o que eles querem; que aceitemos os seus desejos, imitemos os seus estilos e atuemos em conformidade. Não vai querer um carro fazendo uma só chamada? Mas quantas mais fizer mais hipóteses tem de ganhar; você é que sabe... Compre o aparelho e a pílula doiradinha, que vai ficar elegante e irresistível, mesmo que continue a comer aqueles bolos carregados de chantilly . E estas próteses para ouvir o sino do Vatica...

A meia

Um professor amigo circulava pela sala de aula, tentando manter a atenção dos alunos sobre o tema das mudanças de estado físico da matéria, das ciências da natureza, abordado no ciclo. Quer se queira ou não, com alguma energia e mudanças de pressão atmosférica, a matéria pode passar do estado sólido, ao líquido e deste ao gasoso e vice-versa. Aquecendo o gelo, passa a água e esta por sua vez a vapor de agua. Claro que há exceções, como passar de sólido a gasoso. Nestas coisas da ciência há sempre algo que escapa às regras gerais, ou que enganam os nossos limitados sentidos. Mas voltemos ao jovem professor de ciências. Armado em arauto da verdade, tentava desmistificar com as suas experiências, algumas crendices e magia populares, que crianças e adultos tanto admiram. Como muitos, o nosso mestre, não gostava de se levantar cedo. As rotinas matinais eram aceleradas, de que resultavam algumas imperfeições no traje. Uma manhã, a estrela foi uma meia solta. Além das que levava calçadas, ...

Dinheiro Tecnologia e Futebol

O slogan Deus Pátria e Família já era. O seu tempo já terá passado. De Deus passou-se para o Dinheiro, que circula mais rapidamente de mão em mão e não obriga a rezas. Deus é lento e imprevisível e tanto castiga como recompensa. O dinheiro faz milagres e, por vezes, desgraças. Desaparece num ápice para quem tem pouco e, as vezes, para quem tem muito. Ao contrário de Deus que está, mas não o vemos, o dinheiro está e vê-se em quase todo o lado. A Tecnologia deu uma grande ajuda ao fim de muitas pátrias, que floresceram e sucumbiram com ela. Apoiada no dinheiro, move-se com rapidez e deixa à sua passagem poucos ricos e muitos pobres. Cega e sempre em crescimento, cria feridas difíceis de sanar, gangrenas sociais, que o dinheiro não consegue disfarçar. Os seus olhos e os seus ouvidos estão espalhados por todo o lado, espiando toda a gente. E a Família, como estará ela? Mais variada, mais pequena e mais dispersa. Menos coesa, menos abonada e menos saudável.  Mais tarde ou mai...

A vida assombrada

Sem eira e pouca beira, vagueando pela rua, pensava no Honrado e no Ilusório dois dos seus amigos do passado. As coisas corriam mal. Despedido por quem se ficou a rir e não pagou os atrasados, vivia de biscates e morava na Pontinha com o seu azar. O Honrado era um tipo às direitas, mas era um azarento como ele. Por isso entre amigos era mais conhecido por Vaiderroda, que como quem diz "passa ao largo que ainda me trazes azar". Mas era com satisfação que ouvia esta sua alcunha e estava sempre pronto para encontrar soluções e desenrascar o pessoal. Tinha, porém, um certo incómodo em se relacionar com o Ilusório. Terá existido qualquer coisa entre eles menos agradável e relacionada com saias ou dinheiro. O Ilusório morava (ou pelo menos dizia) num bairro novo para os lados da linha. No grupo de amigos sobressaia de fato impecável. Como eu lhe invejava a sua prosápia sobre os temas mais diversos: dinheiro das tias, o carro comprado ou emprestado do tio, as idas ao Porto e ao...

Visões

O casal Tomaz Polimundo vivia calmamente no seu palácio campestre. No armazém, o Incompreendido pendurado pelas patas, dormitava. Pensava longamente por que o consideravam cego e lhe tinham roubado a ideia do radar. Ele que até via de noite a preto e branco melhor que os humanos. Voava, o que lhe conferia uma curiosidade singular. Fazia alguns favores como comer insetos nefastos e emprestar a sua imagem a vampiros, divertimento para muita gente. Claro que também atacava sorrateiramente manadas de vacas para se alimentar, mas o prejuízo era muito bem menor que os lucros que o dono tirava delas. Agora, mantinha a sua postura de morcego desventurado. Tinha uma prole para cuidar. Mantinha-se alerta de dia e divertia-se à noite. Na horta, o Sofredor era um problema. Debaixo da terra, perfurava sem cessar, abrindo galerias indesejadas por onde se sumia água e desapareciam as minhocas, ou o que havia. Era perseguido, mas com os seus sentidos apurados, menos a vista de que Deus não o abon...

De candeia às avessas

A crise iniciada em 2011 mobilizou "cidadãos e partidos na defesa de um projecto de país, uma democracia social" Drago, 2016. Nada melhor que uma crise para ir à procura da sra. democracia. E como procurar? Com uma candeia. Em que direção? A direito ou às avessas... Então teríamos: A social democracia resulta de um projeto de gente em crise. É assim que, com meia dúzia de palavras, se dá, baralha e torna dar uma ideia. Neste caso:  uma crise, os partidos e cidadãos, um projeto, uma democracia e eu juntei uma candeia. Diógenes, fundador da escola cínica, também andava nas ruas da Grécia Antiga com uma candeia acesa à procura de um homem que vivesse a sua vida de forma honesta, feliz, sem ligar a convenções. Segundo dizem, era adepto da liberdade sexual, da igualdade entre homens e mulheres, da inexistência do sagrado, e opositor às armas, à moeda, ao usura do estado e suas leis. Temos hoje, mais que nunca Stakeholders (pessoa ou grupos com interesses comuns, podendo ser ...

Manter a calma

"Agarrem que é ladrão", gritava a Sra. Arromba. O Meliante passou a correr por ela, agarrou a sua mala e desapareceu na curva da rua... Ninguém mais o viu. Aliás viram-no na outra rua, já de andar descontraído, depois de sacar os valores da mala e a atirar para o contentor do lixo. Só que ninguém soube ou quis saber o que se tinha passado. Hoje o rancho seria melhorado, uma garrafa do bom e uma tarde a jogar à lerpa na tasca do Jacacanta. Enquanto o dinheiro ia trocando de mãos na mesa do Meliante, debitava o LCD as notícias requentadas, do fulano que matou beltrano e o sicrano que conseguiu fugir. Do Esperto que agarrou na massa e se pôs ao piro. Do Sr. Bonito que se atirou da janela porque ja não podia sair pela porta onde o esperavam os credores. Mais à frente, o Sr. Presidente sorria para a criancinha e augurava-lhe um futuro radiante, ou não fosse ele filho do Comendador de Telheiras. Entram os novos carros, a depuralina, os paraísos terrenos da praia e do campo, o cha...