O casal Tomaz Polimundo vivia calmamente no seu palácio campestre.
No armazém, o Incompreendido pendurado pelas patas, dormitava. Pensava longamente por que o consideravam cego e lhe tinham roubado a ideia do radar. Ele que até via de noite a preto e branco melhor que os humanos. Voava, o que lhe conferia uma curiosidade singular. Fazia alguns favores como comer insetos nefastos e emprestar a sua imagem a vampiros, divertimento para muita gente. Claro que também atacava sorrateiramente manadas de vacas para se alimentar, mas o prejuízo era muito bem menor que os lucros que o dono tirava delas. Agora, mantinha a sua postura de morcego desventurado. Tinha uma prole para cuidar. Mantinha-se alerta de dia e divertia-se à noite.
Na horta, o Sofredor era um problema. Debaixo da terra, perfurava sem cessar, abrindo galerias indesejadas por onde se sumia água e desapareciam as minhocas, ou o que havia. Era perseguido, mas com os seus sentidos apurados, menos a vista de que Deus não o abonou, mantinha os seus segredos escondidos, as suas tocas funcionais e a sua prole a salvo. Não tinha donos, nem mordomias, nem salvaguardas legais. Era a esperteza ou cativeiro, ou mesmo a coisa que a gente sabe, se o pau de fogo do Tomaz lhe acertasse.
O Tareco rondando pelo sofás da casa ou pelos jardins das redondezas, fazia a sua vida pacata. Ração a horas, coisas para brincar, mão dos donos para se massajar, cama para se enroscar. Já capado, não tinha prole para criar, nem ratos para caçar. Mostrava a sua independência e importância fazendo os donos andar atrás dos seus caprichos e necessidades... Comida, casa, cuidados, médicos especializados, seguros, futuro assegurado, coisas que os vizinhos humanos da aldeia próxima nem sonhavam; o que é preciso pedir mais?
Já o Perdido, compartilhando as mordomias do Tareco era um estouvado. Corria, cheirava, ouvia o que lhe dava jeito. Submisso e leal, era um piegas. Não podia estar muito longe de casa, era indiscreto e desastrado. Levava reprimendas e, por vezes, ameaças, mas para ele estava tudo bem, era um Zé vai com as outras. Ele ver via, mas fitava as suas orelhas e punha o seu olfato apurado a funcionar e tudo ficava no seu controlo. Sentia-se dono do seu lugar, mas quem mandava mais era o seu querido dono. A vida sorria-lhe e estava, segundo a lei, a salvo de qualquer imprevisto, pelo menos até aparecer um Perdido novo... E aí seria complicado.
Pelo ar pairava o Peregrino. Lento e de olho grande e redondo, observava tudo. Lá andava o Tomaz a tentar caçar o Sofredor acompanhado do Perdido. Mas do Sofredor poucos sinais: um ou outro pequeno monte de terra, resultante das suas escavações matinais. O Tareco esse malandro, mesmo capado andava rondando a casa das Sarianas. Mais por curiosidade talvez, emitia um surdo miar marcando a sua presença. O Perdido saltando e rodopiando desgastava a sua energia matinal e nada de interessante resultava do seu esbatido latir. Já o Incompreendido, fazia as suas contas matinais de uma noite bem passada e via no radar os insetos que comera e vacas que sugara.
Recolhida toda a informação o Peregrino, agora acompanhado do Grifo rumam a casa. Há que manter esta gente bem debaixo de olho, seja noite ou dia, estejam eles acordados ou a dormir, andem eles no céu, em terra ou debaixo dela, calados a falar ou a sonhar.


No armazém, o Incompreendido pendurado pelas patas, dormitava. Pensava longamente por que o consideravam cego e lhe tinham roubado a ideia do radar. Ele que até via de noite a preto e branco melhor que os humanos. Voava, o que lhe conferia uma curiosidade singular. Fazia alguns favores como comer insetos nefastos e emprestar a sua imagem a vampiros, divertimento para muita gente. Claro que também atacava sorrateiramente manadas de vacas para se alimentar, mas o prejuízo era muito bem menor que os lucros que o dono tirava delas. Agora, mantinha a sua postura de morcego desventurado. Tinha uma prole para cuidar. Mantinha-se alerta de dia e divertia-se à noite.
Na horta, o Sofredor era um problema. Debaixo da terra, perfurava sem cessar, abrindo galerias indesejadas por onde se sumia água e desapareciam as minhocas, ou o que havia. Era perseguido, mas com os seus sentidos apurados, menos a vista de que Deus não o abonou, mantinha os seus segredos escondidos, as suas tocas funcionais e a sua prole a salvo. Não tinha donos, nem mordomias, nem salvaguardas legais. Era a esperteza ou cativeiro, ou mesmo a coisa que a gente sabe, se o pau de fogo do Tomaz lhe acertasse.
O Tareco rondando pelo sofás da casa ou pelos jardins das redondezas, fazia a sua vida pacata. Ração a horas, coisas para brincar, mão dos donos para se massajar, cama para se enroscar. Já capado, não tinha prole para criar, nem ratos para caçar. Mostrava a sua independência e importância fazendo os donos andar atrás dos seus caprichos e necessidades... Comida, casa, cuidados, médicos especializados, seguros, futuro assegurado, coisas que os vizinhos humanos da aldeia próxima nem sonhavam; o que é preciso pedir mais?
Já o Perdido, compartilhando as mordomias do Tareco era um estouvado. Corria, cheirava, ouvia o que lhe dava jeito. Submisso e leal, era um piegas. Não podia estar muito longe de casa, era indiscreto e desastrado. Levava reprimendas e, por vezes, ameaças, mas para ele estava tudo bem, era um Zé vai com as outras. Ele ver via, mas fitava as suas orelhas e punha o seu olfato apurado a funcionar e tudo ficava no seu controlo. Sentia-se dono do seu lugar, mas quem mandava mais era o seu querido dono. A vida sorria-lhe e estava, segundo a lei, a salvo de qualquer imprevisto, pelo menos até aparecer um Perdido novo... E aí seria complicado.
Pelo ar pairava o Peregrino. Lento e de olho grande e redondo, observava tudo. Lá andava o Tomaz a tentar caçar o Sofredor acompanhado do Perdido. Mas do Sofredor poucos sinais: um ou outro pequeno monte de terra, resultante das suas escavações matinais. O Tareco esse malandro, mesmo capado andava rondando a casa das Sarianas. Mais por curiosidade talvez, emitia um surdo miar marcando a sua presença. O Perdido saltando e rodopiando desgastava a sua energia matinal e nada de interessante resultava do seu esbatido latir. Já o Incompreendido, fazia as suas contas matinais de uma noite bem passada e via no radar os insetos que comera e vacas que sugara.
Recolhida toda a informação o Peregrino, agora acompanhado do Grifo rumam a casa. Há que manter esta gente bem debaixo de olho, seja noite ou dia, estejam eles acordados ou a dormir, andem eles no céu, em terra ou debaixo dela, calados a falar ou a sonhar.

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