Avançar para o conteúdo principal

A vida assombrada


Sem eira e pouca beira, vagueando pela rua, pensava no Honrado e no Ilusório dois dos seus amigos do passado. As coisas corriam mal. Despedido por quem se ficou a rir e não pagou os atrasados, vivia de biscates e morava na Pontinha com o seu azar.

O Honrado era um tipo às direitas, mas era um azarento como ele. Por isso entre amigos era mais conhecido por Vaiderroda, que como quem diz "passa ao largo que ainda me trazes azar". Mas era com satisfação que ouvia esta sua alcunha e estava sempre pronto para encontrar soluções e desenrascar o pessoal. Tinha, porém, um certo incómodo em se relacionar com o Ilusório. Terá existido qualquer coisa entre eles menos agradável e relacionada com saias ou dinheiro.

O Ilusório morava (ou pelo menos dizia) num bairro novo para os lados da linha. No grupo de amigos sobressaia de fato impecável. Como eu lhe invejava a sua prosápia sobre os temas mais diversos: dinheiro das tias, o carro comprado ou emprestado do tio, as idas ao Porto e ao Algarve para fazer coisas várias. Alguns dos amigos e conhecidos tratavam-no pelo Engenheiro, mas estudos e obras não eram o seu forte.

O vaiderroda e o engenheiro saíram da sua cabeça quando meteu a chave à porta do seu cubículo do r/c, mal amanhado e alugado. Entrou, atirou o pulôver  para a cama e deitou-se ao seu lado. Entre mortos e feridos alguém escapará. Mas, vinha-lhe repetidamente à cabeça quem o teria assombrado.

Amanhã, apanharia o sol matinal anunciado para desassombrar o seu azar. Com sorte arranjaria uma boa bucha e um parafuso de tinto para atestar. E mais força para lutar.



 Kilauea - HD Slot Machine– miniatura da captura de ecrã

Comentários

Mensagens populares deste blogue

Maldita Enxada

Feita a escola primária, os irmãos Jeremias e Alberto trabalhavam no campo, podando, escavando e redrando com a enxada, acartando uvas em cestos vindimos, varejando, colhendo a azeitona. Enfim, um ciclo de tarefas exigidos pelos vinhedos, olivais e matas circundantes à pequena aldeia onde foram criados. Ciclo esse, regulado pelas estações do ano e o saber acumulado pela experiência e transmitido de pais para filhos. Jeremias e Alberto trabalhavam para um reduzido número de proprietários, já que de seu apenas tinham a casa modestamente mobilada de que as enxadas faziam parte. Pelo seus vinte e poucos anos, andavam a rotear com mais alguns homens para os lados das Antas. Aos pares, um com um ferro afiado aluía a terra e o outro com enxada ou pá virava a terra solta de modo criar uma vala de um metro de profundidade, tapando a vala anteriormente aberta, de modo a trazer à superfície a terra nova e mais produtiva e remetendo para a profundidade a já cansada. O dia de trabalho estav...

Perdido

O meu alfa diz-me para sair do carro depois de parar na berma da A24 e eu, educadamente, saí. Ele partiu e eu fiquei. Ainda esbocei uma tentativa de correr atrás do carro, mas não merecia a pena. Perdido, sem cheiros conhecidos para me orientar foi andando, procurando água e comida. Nada, a não ser aquele ruído rouco de carros a passar e cheiro penetrante a algo queimado. Ladrar não era solução. Passa um dia, vem a noite, novo dia e continuo a minha busca. Já o sol ia desaparecendo quando um carro pára. Não é tão grande e bonito como aquele do meu antigo alfa a quem fora fiel. Abrem uma porta e eu, desconfiado espetei as orelhas, fixei o meu olhar e o meu olfato, apesar de confuso pelos fumos e gases dos carros. Algo me diz que são de confiança. Entro para a parte de trás do carro. Não teria uma outra oportunidade como aquela. Vamos, certamente, para uma nova casa e terei um ou mais novos alfa. Há horas de sorte, se bem que ainda era cedo para ficar alegre e tranquilo. O cheiro a ...

Traição

- "Então, Calhona, lá traíste a nação!". Dizia em ar de reprovação e, ao mesmo tempo, zombeteiro o Carica.  - "Foi obrigado, meu padrinho, foi mesmo contra a vontade! Eles eram muitos e apanharam-me". desculpava-se o Calhona. No período do entrudo na aldeia, os moradores do cimo de vila e o baixo de vila passavam a ser considerados duas nações desavindas... A fronteira era a rua principal que a cortava a meio. Para além das ameaças e altercações entre os moradores desavindos, em horas mais renhidas havia tiros de caçadeira para o ar, mas na direção dos inimigos... O Calhona, à noitinha, como se lhe acabou o inseparável tabaco de enrolar, fez uma sorrateira incursão à taberna localizada no fundo de vila par o comprar. Mas foi detetado por ativistas inimigos, que o apanharam, interrogaram e o obrigaram a pegar numa caçadeira e disparar na direção do cimo de vila. A ação foi testemunhada e difundida por toda a aldeia como mais um triunfo dos da aldei...