Sem eira e pouca beira, vagueando pela rua, pensava no Honrado e no Ilusório dois dos seus amigos do passado. As coisas corriam mal. Despedido por quem se ficou a rir e não pagou os atrasados, vivia de biscates e morava na Pontinha com o seu azar.
O Honrado era um tipo às direitas, mas era um azarento como ele. Por isso entre amigos era mais conhecido por Vaiderroda, que como quem diz "passa ao largo que ainda me trazes azar". Mas era com satisfação que ouvia esta sua alcunha e estava sempre pronto para encontrar soluções e desenrascar o pessoal. Tinha, porém, um certo incómodo em se relacionar com o Ilusório. Terá existido qualquer coisa entre eles menos agradável e relacionada com saias ou dinheiro.
O Ilusório morava (ou pelo menos dizia) num bairro novo para os lados da linha. No grupo de amigos sobressaia de fato impecável. Como eu lhe invejava a sua prosápia sobre os temas mais diversos: dinheiro das tias, o carro comprado ou emprestado do tio, as idas ao Porto e ao Algarve para fazer coisas várias. Alguns dos amigos e conhecidos tratavam-no pelo Engenheiro, mas estudos e obras não eram o seu forte.
O vaiderroda e o engenheiro saíram da sua cabeça quando meteu a chave à porta do seu cubículo do r/c, mal amanhado e alugado. Entrou, atirou o pulôver para a cama e deitou-se ao seu lado. Entre mortos e feridos alguém escapará. Mas, vinha-lhe repetidamente à cabeça quem o teria assombrado.
Amanhã, apanharia o sol matinal anunciado para desassombrar o seu azar. Com sorte arranjaria uma boa bucha e um parafuso de tinto para atestar. E mais força para lutar.
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