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Manter a calma

"Agarrem que é ladrão", gritava a Sra. Arromba. O Meliante passou a correr por ela, agarrou a sua mala e desapareceu na curva da rua... Ninguém mais o viu. Aliás viram-no na outra rua, já de andar descontraído, depois de sacar os valores da mala e a atirar para o contentor do lixo. Só que ninguém soube ou quis saber o que se tinha passado. Hoje o rancho seria melhorado, uma garrafa do bom e uma tarde a jogar à lerpa na tasca do Jacacanta.

Enquanto o dinheiro ia trocando de mãos na mesa do Meliante, debitava o LCD as notícias requentadas, do fulano que matou beltrano e o sicrano que conseguiu fugir. Do Esperto que agarrou na massa e se pôs ao piro. Do Sr. Bonito que se atirou da janela porque ja não podia sair pela porta onde o esperavam os credores. Mais à frente, o Sr. Presidente sorria para a criancinha e augurava-lhe um futuro radiante, ou não fosse ele filho do Comendador de Telheiras. Entram os novos carros, a depuralina, os paraísos terrenos da praia e do campo, o champô, a lamina de barbear. Volta logo a seguir o Sr. Desemprego saído da janela da estatística, a Sra. Queda da bolsa, o Sr. Mapa Portugal salpicado de sol, nuvens e chuva. "Não se esqueça de amanhã voltar a estar connosco..."

O Meliante perde a maça da Sra. Arromba e ganha uma enxaqueca com aquela zurrapa do Jacacanta. A Sra. Queda fica com a bolsa quase vazia. O Sr. Esperto estira-se ao sol nas Caraíbas com o pilim a engordar o Caimão e fazendo adeus lá de longe ao Mapa Portugal e seus salpicos. O Sr. Presidente volta-se na cama a sonhar com o filho do Comendador a tomar posse do ministério da presidência.

E a Sra. Arromba? Desconsolada, senta-se numa poltrona puída na casa de um só piso na zona velha da cidade. Sem dinheiro e sem bolsa, assiste no seu velho televisor ao milagre do creme rejuvenescente, da esguia depuralina e do suave escanhoamento da lâmina de barbear.

Mantenha a calma Sra. Arromba. Amanhã, já que a sua casa não tem janelas, terá que sair, pela porta. Irá pedir desculpa ao Sr. Banco, que lhe poderá valer mais algum tempo endividada. Depois, falará com o Sr. Eletricidade para, no caso de se cortar, por mais um pensozito e mudar de lâmina.

Se a calma chegar, poderá comprar uma bolsa de estudos que o dinheiro já se foi...





Comentários

Unknown disse…
Aqui vai sem dó nem piedade.

Que enredo mais giro... Está demais!
Direi mesmo, brilhante!
Esta sim.
Bem as outras também, mas esta está uma delícia.
Crítica social muito apurada e aguçada.

Quinunes
jvpinto disse…
Obrigado.
Espero pelos desenhos e textos que tens para aí. Podes colocar neste ou noutro blog que cries.
Serve para "entreter" a "geringonça".
Um abraço
Vaz Pinto

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