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Mensagens

Olhos na tinta roriz

"Então Barcelino, estás a deixar as varas com três e quatro olhos? Olha que a tinta roriz no máximo dois olhos por vara é quanto basta", recrimina o Zé Sabão, um experiente podador. Mas Barcelino riposta: "Eu sei, mas o patrão precisa de dinheiro... E depois vem o pedrolho ou a aranha que lá come um ou outro rebento... Ou mesmo a geada que queima alguns.... Vão por mim, deixem lá mais um olho ou dois nas varas, porque o patrão precisa, porra!" E valada após valada lá iam, com mais ou menos frio e mais ou menos generosidade para com a natureza e com o patrão, cortando meticulosamente as varas do talhão da tinta roriz, naquele fria manhã do minguante do mês de Janeiro. Pouco tempo depois o Barcelino volta à carga, agora com ar mais recatado. "E aqui entre nós, há também mais uma coisa, Vocês não sabem que os americanos e ingleses têm umas máquinas no céu que vêm a forma como nós podamos as videiras e fazemos o cultivo da vinha para, depois, nos impingir...

Os quatro do fundo da sala

Num dos primeiros dias do mês de Outubro, lá se apresentou na escola para começar a 1ª classe, levado por sua mãe. Entregou-o à professora com quem entrega uma prenda: "Cá está a encomenda. Se se portar mal, carregue-lhe... Mas não deve ser preciso, só é um pouco teimoso...". A escola era numa sala retangular por cima de um armazém de tonéis, com velhas janelas a norte e a poente e com a entrada pelo adro da Igreja. O soalho já tinha os seus dias e não era conveniente deixar cair lápis, aparos ou outro material de pequena dimensão porque iriam parar ao armazém e não havia devolução.   As carteiras estavam dispostas em filas viradas para o estrado com secretária em madeira, um quadro de ardósia, um mapa e mais alguns apetrechos.  Lá estavam o Carmona e o Salazar pendurados na parede, ombreando com um crucifixo modesto. Na última fila da escola estavam duas carteiras maiores que as restantes, cerca de vinte. Os seus detentores eram conhecidos de todos de modo...

Os heróis

Ao pensar em heróis, vêem à memória um conjunto de pessoas que pensaram e ou realizaram obras que os destacaram dos restantes contemporâneos. A história  encarrega-se de registar os vencedores e alguns vencidos, os descobridores, os inventores, os pensadores, os artistas e por aí fora.   Mas a história não lembrará o Sr. Carriço que, dias e dias com pouco descanso, se levantava ainda de noite para, com a sua enxada às costas, percorrer algumas encostas, chegar ao despontar do sol à propriedade do patrão. Juntamente com outros "carriços" escavou e redrou, bardo a bardo, socalco a socalco, ano após ano, as vinhas da quinta senhorial, alimentado a caldo e sardinha, pão e algum vinho. Com o pouco dinheiro que recebia, sustentou a sua mulher e criou os três filhos. Conseguiu ainda comprar a custo e já no fim de vida, com ajuda dum empréstimo honrado de um amigo, uma pequena parcela de vinha que cuidou zelosamente e legou aos seus descendentes. A história não lembrará a S...

Coentros

Os coentros numa açorda são uma instituição para um alentejano que se preze. Talvez seja como a salsa utilizada na zona duriense para aspergir o coixão de borrego e arroz, em alguidar de barro a cozinhar num forno de lenha. Tanto os coentros como a salsa têm cheiros penetrantes e caraterísticos. São ervas com estatuto cultural marcante, apesar da sua fragilidade herbácea. Mas deixemos a culinária e vamos saber dos encontros do coentro com a salsa. Enquanto a salsa diligentemente atingia a sua maturidade, resistindo às vicissitudes do clima e das incompreensões humanas, o coentro iniciava a sua vida em ambiente protegido e sem grandes complicações.  Conheceram-se, como quase sempre acontece, por acaso. Viam-se, falavam, marcavam novos encontros. Ela pacífica e sofrida, ele jovial e assertivo. A salsa envelheceu, começou a engelhar, sem dar conta. Foi sobrevivendo, ultrapassada pela história e pelos acontecimentos, enquanto o pujante coentro, embora austero, se man...

Pano branco no telhado

"Ó Maria, manda-me embora!!!", dizia Maria dos Acentos à sua comadre. Depois vinha outro assunto à baila e a conversa fluía num emaranhado de temas desde a vida quotidiana dos habitantes da sua pequena aldeia, às tarefas agrícolas ou às novidades das feiras das cidades vizinhas. A Maria Guedes metia uma ou outra palavra para suportar a imperiosa tagarelice da sua comadre. "Ai Maria que não tenho tempo para fazer o almoço! Manda-ma lá embora por alma de quem lá tens...". Mais uma cereja aparecia na conversa até que de repente e apressada lá despegava da conversa. A Maria dos Acentos era uma das filhas do Casal Guedes. Mas a sua reputação não era a melhor aos olhos do seu pai. Para o efeito contribuíam o seu feitio um tanto rude e a sua propensão para se agarrar demasiado a alguns haveres do armazém do pai Guedes, nomeadamente da salgadeira do porco e do bidon do azeite. A outra Maria, a Guedes, era sua cunhada e comadre, mas era tratada como uma filha predileta ...

Relógio omega

O pai com a sua arma de caça na mão direita seguia à frente do seu filho mais velho. Algures ali perto, no seu trabalho de cão de caça, seguia ziguezagueando o irrequieto Nestlé. Palmilhavam aqueles campos lá para os lados do "regato", terras assocalcadas de oliveiras e um pobre regadio, suportado por uma não menos pobre nascente de água, armazenada num tanque de pedra granítica. Nele vivia uma larga comunidade de salamandras pretas de pintas amarelas. No regadio medravam a custo, cebolas, feijão, tomate e o que Deus dava. Mas nesse dia, pai e filho passaram pelo local como cão por vinha vindimada, porque as prioridades eram outras... Ao passar por uma estreita passagem no muro que delimita o seu terreno com a vinha do vizinho, eis que o filho fica de olhos esbugalhados não querendo acreditar no que via. No chão, em cima de um pequeno tufo de ervas ele ali estava, o relógio de bolso ómega, agarrado a uma pequena corrente de prata. Aquele relógio, que fazia as delícias dos...