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Os quatro do fundo da sala

http://www.escultorfsa.pt/ebouteiro/images/Instalacoes/Sala%20antiga%20003.jpgNum dos primeiros dias do mês de Outubro, lá se apresentou na escola para começar a 1ª classe, levado por sua mãe. Entregou-o à professora com quem entrega uma prenda: "Cá está a encomenda. Se se portar mal, carregue-lhe... Mas não deve ser preciso, só é um pouco teimoso...". A escola era numa sala retangular por cima de um armazém de tonéis, com velhas janelas a norte e a poente e com a entrada pelo adro da Igreja. O soalho já tinha os seus dias e não era conveniente deixar cair lápis, aparos ou outro material de pequena dimensão porque iriam parar ao armazém e não havia devolução.
 
As carteiras estavam dispostas em filas viradas para o estrado com secretária em madeira, um quadro de ardósia, um mapa e mais alguns apetrechos.  Lá estavam o Carmona e o Salazar pendurados na parede, ombreando com um crucifixo modesto. Na última fila da escola estavam duas carteiras maiores que as restantes, cerca de vinte. Os seus detentores eram conhecidos de todos de modo especial. Rapazes já entradotes, com aversão ao estudo e em que se não se depositara qualquer esperança de saírem dali a não ser por limite de idade. Os seus trabalhos habituais eram passados diariamente na lousa na parte esquerda. Ora letras, ora números para copiar no restante espaço da pedra, que iam lentamente realizando para preencher o dia de trabalho, entremeando esta tarefa com sussurros, picardias e sonhos de uma vida melhor.

Eram eles, o Salvação, o Zarelho, o Capitão Bolor e o Quintas, representantes digníssimos de umas tantas famílias mal afamadas da aldeia lá estavam no seus lugares, com um recato a roçar a indiferença. Na sua aparência e nos seus modos sobressaiam a pobreza e os maus cuidados que enfrentavam quotidianamente. Reagiam com a um olhar de agressividade latente, um desprezo pela correção e perfeição e um desencanto com o mundo que ia passando na sua frente.

Chegou o dia do exame da quarta classe. Lá foi a encomenda e seus colegas com direito a serem levados a exame, fazer os problemas das torneiras a encher e a vazar tanques, debitar os sistemas das serras, os rios e afluentes, os réis e as rainhas. Como se esperava, lá passaram, Os quatro, porém, continuaram a esperar na carteira pelo limite de idade para abandonar o sacrifício das letras e números na ardósia e se fazerem definitivamente à sua vida...

Passados anos, a escola desse tempo é um mero ponto mortiço da memória na sofrida meninez desses tempos rudes, intragáveis e irreversíveis. Deixada a ardósia, seguiu-se o trabalho, a emigração a constituição de família. O Salvação continua livre e cauteloso, vagueando pela sua aldeia e aldeias em redor, visitando os seus familiares, onde come e se acoita, na companhia do seu guarda chuva na maior parte do ano. O Zarelho, o Capitão Bolor e o Quintas, mal ou bem, ora na sua aldeia ora em terras de emigração, constituíram e sustentam as suas famílias.

Também a encomenda e a maioria dos seus colegas da escola, mais cedo ou tarde, lá partiram para terras de cá e de além donde fazem regressos ocasionais. Com mais ou menos sorte na roleta da vida, resta-lhes vaguear, ganhar o sustento e recordar...

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