"Ó Maria, manda-me embora!!!", dizia Maria dos Acentos à sua comadre. Depois vinha outro assunto à baila e a conversa fluía num emaranhado de temas desde a vida quotidiana dos habitantes da sua pequena aldeia, às tarefas agrícolas ou às novidades das feiras das cidades vizinhas. A Maria Guedes metia uma ou outra palavra para suportar a imperiosa tagarelice da sua comadre. "Ai Maria que não tenho tempo para fazer o almoço! Manda-ma lá embora por alma de quem lá tens...". Mais uma cereja aparecia na conversa até que de repente e apressada lá despegava da conversa.
A Maria dos Acentos era uma das filhas do Casal Guedes. Mas a sua reputação não era a melhor aos olhos do seu pai. Para o efeito contribuíam o seu feitio um tanto rude e a sua propensão para se agarrar demasiado a alguns haveres do armazém do pai Guedes, nomeadamente da salgadeira do porco e do bidon do azeite. A outra Maria, a Guedes, era sua cunhada e comadre, mas era tratada como uma filha predileta pelo seu sogro Guedes, que ela cuidava com dedicação e o melhor que sabia, mesmo quando a doença o atirou para a cama.
E a conversa de sempre lá continuava, pressionada pelo tempo e pela vontade de se alongar nas trocas de informação e nas queixas da vida. "O que é que ela queria sei eu! Era comer sem trabalhar. Cá se fazem cá se pagam. Vais ver que eu ainda hei-de ir à cidade, meto um advogado e ela vai ver quem eu sou!.. Maria, já agora, passo pelo armazém para levar um garrafão de vinho, que o meu "azedou" todo... " Bate o sinal da uma da tarde no sino da Igreja. "Ai já uma hora! Maria manda-me embora... que eu já estou a ver o meu Manel a bufar pelas ventas à espera do almoço! Será desta que as apanho! Ai eram bem dadas...
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