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À Mesa

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O ambiente estava ligeiramente mais agitado que o costume. Mais gente, mais pedidos, mais reclamações, mais demoras, mais empregados em aceleração e desorientação. Era impossível não ouvir o bater dos talheres, dos pratos e dos copos, os risos, as impaciências, os suspiros, os murmúrios, os gritos esganiçados de crianças, as reclamações em surdina e um zoar contínuo da amalgama de sons de um restaurante qualquer.

Um casal de jovens de fraca e delgada estatura, sentados frente a frente numa mesa. Depreendia-se que ela desfiava insinuações de infidelidade e pedidos de renovação de confiança, enquanto ele sobrepunha a sua inocência e gesticulava a impaciência de ser incompreendido. 

Noutra mesa, uma mãe acompanhada de duas irmãs e seu filho de tenra idade. As tias tentavam refrear e alimentar a criança, ao mesmo tempo que se iam misturando olhares e frases condescendentes com garfadas de massa e chop suey. A criança, ora sentada na cadeira, ora rodando pelos colos delas, onde permanecia pouco tempo empinando o corpo para se esgueirar, dava nota da sua irritabilidade crescente. A lata de lipton e o telemóvel foram o seu almoço. Uma garfada de comida metida a custo no meio das mudanças constantes de colo. A conversa a condizer. No meio das interrogações e repreensões da mãe ao seu desempenho à mesa uns quantos: "queres mais sumo?", "tiraste uma foto à mesa, outra à mesa, outra à mesa...", "vai sobrar comida", "o advogado dele é melhor que o nosso... com dinheiro tudo se consegue...", "...vê lá se paras quieto...". A mesa, numa confusão de travessas, copos e pratos, gemia de dor pela falta de acalmia, de trocas de carícias, de gestos e frases serenas e positivas. O lipton e o telemóvel deixavam-se ir, resignados à sua sorte de escravizadores involuntários.

O casal de jovens paga e sai, aparentemente vencidos pela insistência e pela incerteza, deixando a mesa muda, ainda carregada de comida e digerindo o desconforto do desentendimento. Na outra mesa, as tias resignadas à inconstância dos novos tempos, aguardavam que a ela confiasse à mãe da criança a paciência e serenidade para encarrilhar o futuro.


O zoar das conversas e dos talheres ficou a flutuar no ar...

Comentários

Anónimo disse…
Bela narrativa,cheia de sentimentos e emoçőes para além da descrição do cenário.uma boa sinopse para uma peça de teatro. Um abraço
(comentário de Carlos Gradiz)

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