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Um senhor

Resultado de imagem para candeia azeite acesa noite 

"Alumia a senhora até ao quarto, por favor". Podia ser algo dito por qualquer pessoa, num qualquer lugar. Mas esta era a frase que o Justiniano, dizia para a sua nora, Sofia, quando a sua esposa Luísa já se encontrava um pouco toldada e desorientada devido a um pequeno exagero na bebida e entrada na noite. Não revelava um queixume, mau humor ou mesmo crítica ou repreensão. Na sua singela figura, apenas compreensão.

O tempo em que o trabalho nos campos era árduo e moldava os corpos ao ritmo das estações do ano, Justiniano gostava de uma boa discussão sobre a política e agricultura. A fé encarregava-se de arrumar o sagrado e o futuro incerto. A esperança era espalhada pelos campos que evoluíam ao seu ritmo, marcado pelas estações e dedicação humana. A caridade ponteava de vez em quando, oferecendo malgas de caldo ou roupas a mendigos itinerantes e a famílias sem posses.

De manhã cedo, dava uma olhadela pelas vinhas, olivais e calços de regadio. Uma ou outra vez, um giro pelos matos e serras à caça. De tarde, alguns dias, a leitura do Diário de Notícias chegado com atraso de um dia, assinado por um dos vários senhores da aldeia e que passava de leitor em leitor por graça de um neto que o transportava de casa para casa, onde era agraciado com um naco de pão de milho e, às vezes, marmelada. Outros dias, regar as hortas, pagar a féria ao pessoal, fazer contas à vida.

"Alumia a senhora até ao quarto, por favor". E elas em passadas titubeantes, lá iam, Sofia alumiando o caminho da cozinha até ao quarto com uma das candeias de azeite, passando pelo longo corredor e escadas de madeira e agarrando firme o braço de Luísa.

"Alumia a senhora até ao quarto, por favor". Naquele tempo e, talvez ainda hoje, esta frase define um senhor. 

Comentários

Unknown disse…
Tempos duros,aqui muito bem retratados.Gostei bastante!Onde é que eu já ouvi está história???.....continua!!!!

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