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O Terço

António, de alcunha o Gato, devido aos seus olhos azuis, para além da obrigação de zelar pelo granjeio das vinhas e olivais espalhados pela freguesia, adorava o seu violino e a caça. Não morria de amores pelas tabernas nem por futebóis. Religioso, ia à missa aos domingos e dias santos, abstinha-se de carne na semana santa, mesmo pagando a bula e rezava o terço à noite, com a mulher e seus quatro filhos, ainda rapazes.

A oração do terço era cantarolada alternadamente pelo pai e restantes membros da família, num dialogo quase musical, repetitivo e transmitido de pais para filhos. Naqueles momentos passava-se do rebuliço do dia à calma, da traquinice ao sossego, tornando-se um momento de comunhão e ao mesmo tempo de entrada na escuridão, atenuada pela luz trémula duma candeia de azeite. Por isso, o trautear do terço convidava, logo de início, a um deixar-se levar nos braços da noite. Resistir-lhe era quase impossível.
Assim, a maioria das vezes, lutar contra o sono era uma guerra perdida. Os que já estavam encostados procuravam manter os olhos abertos e os sentados tentavam não perder a compostura. Todos procuravam emitir os sons supostos da oração, em vez daquela música arrastada e entrecortada de sons desarticulados. Geralmente, o pai, pouco tempo de iniciar a oração, sucumbia ao sono. A mulher dava-lhe um ligeiro safanão. Ele acordava repentinamente e, como tinha perdido a noção aonde a reza repetitiva já ia, perguntava sobressaltado: "Quem é que tem o terço? Em que mistério vamos?".

Normalmente era o filho mais velhinho, junto ao pai, que ia passando as contas do terço. Com a complacência da mãe o filho respondia:"Já rezamos as três ave-marias, só falta o padre nosso e o credo". O pai, replicava, ainda sonolento e soprando a já mortiça chama da candeia: "Então rezemos o credo e vamos dormir...".

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