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Deixa arder que o meu pai era bombeiro

Estamos no Verão na época dos fogos, dos que consomem as matas e mesmo casas. Não dos de artificio, nem dos que constituem uma agregado a viver numa casa, nem tão pouco dos "fogos que ardem sem se ver".

O Manuel tem uma ou duas matas de pinheiros na aldeia, mas está emigrado na Suíça e nem sabe quando e se voltará uma dia para tratar delas.
O Joaquim, foi em novo para a guerra colonial. Voltou e ficou pela PSP na capital. Os prédios (vinhas, olivais e matas), passa por elas no dia de festa da aldeia. Estavam entregues a um irmão, que, por sua vez, tirou um curso de ótica e foi trabalhar para o Algarve. Os seus "prédios" e os do irmão que se amanhem sozinhos, por que não há quem lhes pegue.
O Álvaro, depois de fazer a tropa nos comandos, vem e vai para a apanha de frutas e hortícolas na França. Tem também umas courelas e algumas são matas entregues a si próprias. Dá uma lambedela a umas parcelas de vinha, já que gosta do líquido fermentado das uvas. Os amigos, dizem o que o seu vinho vem "empalhado", já que a erva seca e alta grassa sem controle ao redor dos cachos. Ainda não aconteceu ter pegado fogo, mas o Rodrigo seu parceiro de jogo da sueca no único café da aldeia, já ficou um ano sem pinga na sua vinha empalhada percorrida pelo fogo que grassou e saltou dum pinhal vizinho.
O reformado Inácio, deixou os campos que tem na aldeia a familiares. Fez vida a trabalhar nas fábricas da capital do móvel. Tratava-os nos fins de semana e as férias eram para as vindimas. Agora já com o corpo a pedir sossego e os filhos espalhados por outro Portugal e estrangeiro, dá umas voltas numa autocaravana.

Há também o Madeira, que nem de propósito negoceia em madeira, mas também se dá bem com uns rapazes que passam o tempo na esplanada do café, recebem um subsidio social e fazem uns fretes de atirar uns petardos de fogo em matas, pela calada da noite.
O presidente da junta espalha sorrisos e trivialidades pelos seus correlegionários e apoiantes. "Que chatice estes fogos que aparecem sem esperarmos, só podemos deixar arder... Já nem merece a pena chamar os bombeiros..."
O presidente da câmara está reunido com o gabinete de proteção... "Eh pá, quantos fogos é que temos para aí? Uns vinte? Esta gente só me arranja trabalho... Pegam os fogos, vão descansar para casa e eu que me lixe aqui dia e noite a contar os fogos, a aturar os jornalistas... Eu já estava a prever isto! Arranjem-me mais uma torrada e um café..."
O ministro do reino e seus coadjuvantes passam o corpo pela água quentinha do Algarve, para se estirarem ao sol nos areais a secar. Voltam como podem ao ativo. "Vamos apreciar a situação e responder em conformidade... Linhas de crédito, meios reforçados, etc. e tal. Está tudo a dar o seu melhor. Vamos reformular a politica das florestas, ou seja torná-las mais resistentes aos incêndios e incendiários..."
O presidente e seus acólitos moralizam a malta. "Ei! pessoal estamos convosco... Castiguem esses incendiários... Reordenem essa floresta... Que o Outono e umas chuvadas venham depressa, para podemos esquecer este assunto e passarmos ao próximo. Aposto que vamos ter problemas de água (o mar a roubar-nos território ou os rios a arrastar os restos dos incêndios e a levar casas e carros pró mar), ou será a terra (um terramoto, ou um abanão, talvez na falha de Santo André, que está por um fio), ou no ar (um ciclone ou um desastre aéreo, talvez com bombas...). Bem pessoal, vão-me preparando a agenda, os discursos e o programa das festas para estes cenários... com umas condecorações pelo meio. Por agora, temos de deixar arder o que tem de arder, porque o paizinho, que Deus tenha em descanso, era bombeiro."

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