O meu alfa diz-me para sair do carro depois de parar na berma da A24 e eu, educadamente, saí. Ele partiu e eu fiquei. Ainda esbocei uma tentativa de correr atrás do carro, mas não merecia a pena. Perdido, sem cheiros conhecidos para me orientar foi andando, procurando água e comida. Nada, a não ser aquele ruído rouco de carros a passar e cheiro penetrante a algo queimado. Ladrar não era solução.
Passa um dia, vem a noite, novo dia e continuo a minha busca. Já o sol ia desaparecendo quando um carro pára. Não é tão grande e bonito como aquele do meu antigo alfa a quem fora fiel. Abrem uma porta e eu, desconfiado espetei as orelhas, fixei o meu olhar e o meu olfato, apesar de confuso pelos fumos e gases dos carros. Algo me diz que são de confiança. Entro para a parte de trás do carro. Não teria uma outra oportunidade como aquela. Vamos, certamente, para uma nova casa e terei um ou mais novos alfa. Há horas de sorte, se bem que ainda era cedo para ficar alegre e tranquilo.
O cheiro a fumo de carros desvaneceu-se e surgem cada vez mais cheiros a campo, fumo de lareiras e de colegas. O carro pára. Certamente chegou ao seu destino. Dizem-me algo e chamam-me para sair. Vejo casas de aldeia semeadas pela encosta em socalcos verdejantes. Procuro e encontro os primeiros sinais de colegas em postes agarrados a fios e esquinas de casas de aldeia.
Sigo o meu novo alfa para a sua casa. Dão-me de comer e eu aceito. Marco o meu território no quintal da casa. Observo que tenho uma casota e um alpendre parcialmente ocupado com lenha para descansar e para dormir. Encontro dois gatos, que trato com indiferença. Apenas os aviso de duas coisas. A primeira é que serei sempre o primeiro a escolher o que nos for dado para comer; a segunda é que eles podem andar no meu espaço, mas ouros gatos não.
Aqui, em vez das rações em lata, dão-me restos variados, muito mais saborosos. De vez em quando acompanho o meu novo alfa a locais com vinhas e olival. Por vezes vou à Igreja com ele, mas limito-me a estar presente, quieto debaixo de um banco, onde vários alfa ora se sentam, ora se ajoelham e por vezes ficam de pé. Limito-me a observar já que não sei rezar. Por vezes saio sozinho e vou a casas vizinhas, onde geralmente encontro mais comida e outros colegas. De vez em quando tenho algumas desavenças com eles, geralmente por causa da comida e de fêmeas-alfa. Dou e levo umas mordedelas, que curo com descanso numa adega, ou em outros lugares frescos do meu território.
Alguns dias depois de ter chegado, levaram-me ao centro da vila para me registarem e vacinarem. Verifico que, quase todos nós nesta aldeia, não usamos trela. Puseram-me o nome de "Perdido".
Prometi a mim mesmo não voltar a entrar em carros.
Quem sabe se me levam outra vez para a A24.
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