Para ele, caçar era um vício e também uma arte. Raramente errava uma perdiz, mas os coelhos não lhe interessavam por aí além. O Russinho, seu compadre, esse sim, os coelhos eram a sua predileção. Sozinho ou em companhia de outros caçadores rondava repetidas vezes as matas e terrenos cultivados que circundavam a aldeia. Com as perdizes penduradas no seu cinturão de cabedal, regressava para o almoço e entregava a caça à sua Clara para as preparar para a ceia ou almoço do dia seguinte.
Certo dia, estava ele no seu banco limpando a arma, acompanhado do neto, algo irrequieto, correndo à sua volta. Ouve-se um som rouco, abrupto e inesperado, que irradiou pelo armazém de encontro às paredes e tonéis. No fundo da porta abre-se um rombo pequeno e circular que o chumbo do cartucho disparado da arma levou na sua frente. O neto parou por momentos sem perceber o que se tinha passado. Justiniano, após um ligeiro sobressalto, chama o neto, acolhe-o por momentos nos seus braços e diz-lhe que não foi nada e que continue a brincar. Ele acaba a sua tarefa de limpeza e lubrificação da arma e retira o cartucho vazio e arruma-a no lugar do costume.
Muitos anos se foram passando e o buraco na grande porta de madeira e zinco foi ficando, recordando a Justiniano aquele momento de sorte ou intervenção divina que felizmente evitou que a desgraça se tivesse abatido na sua família. Segredo que ele foi guardando consigo.
Às perguntas de quem ficava intrigado pelo atípico buraco na porta ele respondia que "antes um buraco numa porta que serve para passar o ar do que no peito de alguém..."
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