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Lucrécia


Lucrécia sempre quis andar na moda. Comprava obstinadamente revistas, percorria as ruas e corria para as montras com olhares devoradores e entrava numa ou noutra para apressadamente vestir e despir roupa e sapatos. Depois de muito experimentar lá levava um par, ou umas calças ou saia e blusa de cores recomendadas e talhe a condizer. Isto a um ritmo semanal nas mudanças de estação, e muito espaçadamente nos pinos de verão e depressões invernais. Havia porém uma época excepcional nas vésperas da ida para férias, em que o fato de banho era criteriosamente escolhido, dependendo da maior ou menor eficácia da dieta.

Uma coisa que preocupava Lucrécia era a sua imagem de marca - os chapéus. Mais redondos ou ovais, mais altos ou baixos e com mais ou menos adereços, ele devia rematar com suprema distinção o equilíbrio do conjunto em que a cor e design dos sapatos não era descurado. Depois vinham os lenços de seda, ou não; as malas e carteira a harmonizar o conjunto.

Lucrécia tinha a sua vida social, política e religiosa. Socialmente, interessava-se pelo perto e imediato. Nada de acontecimentos fúteis como guerras, atentados, taxas de juro, dívidas soberanas e afins, acontecimentos para lá do seu restrito e seleto circulo próximo. Na política, a sua atitude era a quase indiferença. Apreciava a indumentária das figuras públicas e fazia comentários que iam do "que pena não ter um lenço azul no bolso do casaco" a "como fica pindérica com aqueles sapatos de saltos altos". Na religião, a sua discrição era quase total. Ia a uma missa de vez em quando para confrontar a sua toalete com as demais, sorria discretamente para o padre e benzia-se com uma ligeira vénia, sem esquecer de beijar com suavidade a unha de gel do polegar direito.
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Quem não conhece uma Lucrécia assim? Talvez todos conheçam. Esta, porém, era singular. O seu íntimo, talhado por uma infância pouco feliz, tinha algumas amarguras escondidas. O seu filho partira, talvez sem retorno, para um país distante. Os seus fracos dotes vocais impediram-na de realizar o seu sonho de cantora ou atriz. Acabou por ser agarrada por um trabalho rotineiro de secretária incompreendida numa empresa de donos incertos.

Como ela desejava ter sido a Lucrécia Bórgia, que terá sido papisa. Não tanto pelo poder, mas pelas vestes e chapéus.


Comentários

Unknown disse…
Continua a tua crítica social e não só e dar que pensar...
Eu também conheci um Lucrécia, mas esta infelizmente era a antítese da tua, em quase tudo. Isto é, na parte social e seu desejo de dar nas vistas, no vestir e no despir (vestidos, chapéus e sapatos) enfim na sua imagem de marca. Esta minha Lucrécia tinha uma vida social quase nula, apenas conhecia os colegas da sopa dos pobres, de política apenas uma bandeira vermelha com uma caveira negra de fundo e em relação à religião só conhecia o pároco lá da freguesia que de vez em quando lhe arranjava qualquer coisa (trapinhos) para usar. Não tinha família e nem se lembra de ter tido, alguma vez.
Ah!!! e também queria ser uma Bórgia, mas para pedir que a levassem desta inferno...
Uma estória de fazer chorar as pedras da calçada.
Não leve a sério, pois, esta, não é verdadeira. Podia muito bem ser e acredito que deve haver, infelizmente, mais destas.
Abraço.
Joaquinunes.
jvpinto disse…
Bom...
Há Lucrécias para todos os gostos. A diferença é bem-vinda e recomenda-se. Com as devidas exceções...

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