A senhora Inércia tem uma irmã gémea, a Inércia Social, que vive num bairro da periferia na mesma cidade da irmã. Ela deseja mudar o seu aspeto, mesmo que o seu íntimo continue o mesmo, mas logo vêm as críticas e os reparos.Ela propõe novos meios para atingir os fins, mas logo vêm outros a tornear a situação, conseguindo os fins sem olhar a meios. Ela inclusivamente até suplica que podem confiar nela para o que der e vier, que podem ficar descansados, mas há sempre uns que a empurram para a direita e outros que a empurram para a esquerda. Às vezes até perde o equilíbrio, desorienta-se e cai, sendo maltratada por indistintas pessoas e grupos. Mas, enquanto todos se digladiam, ela acaba por se levantar e volta ao mesmo, cada vez mais refinada no estilo e mais controversa nas atitudes. Nessa ocasião, enquanto a Inércia fala de coisas concretas e come uns tremoços para acompanhar a cerveja, a Inércia Social, refugia-se em utopias e devaneios e não passa sem um pouco de caviar com vinho Mateus rosé.
Findos esses espaçados encontros, reconfortadas pelo lanche, dizem adeus e regressam às suas casas. Por momentos, a Inércia, mais uma vez de pé agarrada ao varão central, debate-se com paragens e arranques do seu autocarro apinhado de gente. A inércia Social apanha um táxi.
Já a caminho, compadece-se da sua irmã, escrava das leis científicas. Com um sorriso discreto, informa o motorista para passar antes pela Igreja da Sé: Vai encomendar umas missas ao sr. abade para se redimir dos seus devaneios de mudança, bem como da sofrida pacatez da sua irmã.

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