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O meu companheiro partiu

Hoje o Henrique caminhava pelo arredores do bairro. As ruas quase desertas. Encontrava um ou outro vizinho que cumprimentava interessadamente.  Uns poucos sentados nas explanadas, outros trabalhando nas ruas retirando ou colocando adereços, pintando, lavando. Uns mostrando carros de novos modelos, outros passando nas ruas em carros e carrinhas evidenciando mais ou menos o peso dos anos. Uns fumando, outros comendo, outros conversando. O dia começava de forma ao mesmo tempo original e repetível. Como para toda a gente.

Cuza-se com a Deolinda. Rosto que nem os anos nem a tristeza da partida do seu companheiro conseguiram marcar com as inevitáveis rugas; que inveja! Mas a saudade interior consome. Mostra a alegria da compra de uns pequenos bonecos de porcelana, pintados por fora e ocos por dentro, onde depositará pequenas flores, lembrando o companheiro que partiu. Os filhos, que os houve, partiram, também, mas para outras paragens terrenas, mantendo a esperança de, a tempos espaçados, os poder saborear.  Do saco donde retirou os brinquedos, mostra, sem pudor, rolos de papel para a cozinha, comprados ali perto, onde são mais baratos. Debaixo de um dos braços, umas espigas de pés finos e já meio secos assistem impávidas e tranquilas, tal como a conversa entre ambos.

Faz-me muita falta o companheiro que partiu, repete de vez em quando, acentuando a longínqua e ao mesmo tempo presente partida do seu possível e único amor. Com um sorriso sóbrio, lastimando a falta de vista para caminhar nestas ruas e estradas tortuosas desta fresca manhã de Maio, despede-se de Henrique. Vê-a caminhar de forma cautelosa, mas segura, de volta à sua casa, afastando da sua mente as doloridas memórias daquele que, sem querer, terá lutado com todas as suas forças para ficar e partiu.

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