"Se pensas que és normal estás muito enganado. Tu és um esquisito". Isto dizia Afrodite ao seu Nestlé. Alongado no sofá da sala pensava - está bem abelha eu não sou um cão qualquer, quero a minha ração de carne, e não aquela mixórdia que vem nas latas - e abanava ligeiramente o rabo e entreabria os olhos.
Os dias iam passando. Afrodite levava-o a passear pela trela extensível, podendo cheirar à sua vontade os marcos olfativos, marcando e reforçando a dose nos que teriam sido apagados pelos seus "colegas". Às vezes. ia ao sr. doutor Prudêncio. Mas nada de cuidados que vida de cão é assim mesmo. Viver à conta, acatar com subserviência encapotada algumas rotinas diárias, cheirar tudo, guardar o seu território, ser puxado ou puxar pela trela, repousar.
Reparou que Afrodite andava um pouco esquisita. Estava ciumenta e ameaçava-o com a ida para a casota se continuasse a namoriscar com a Mili dum bairro contíguo; "ai vais para a casota vais..." As coisas azedaram quando apareceram os nossos três lindos cachorros e eu fiquei de castigo na dita casota a comer enlatados. Afrodite passou-se da cabeça.
Escrevi numa faixa a frase do Pápa; "O Paraíso está aberto a todas as criaturas de Deus" e coloquei-a no portal da casota. No dia seguinte, Afrodite arrancou a faixa e colocou uma outra "Cuidado com o cão" na porta do quintal. Desolado, meti uma providência cautelar a exigir o fim da detenção e a obrigação de ser alimentado a bife e não a carne enlatada. Até lá estarei em greve de fome.
Daqui da casota, posso ver a minha carrasca Afrodite a comer as suas pipocas enquanto vê num bocado da parede da sala, coisas que se passam lá fora: migrantes famintos dum país qualquer a correr não sei para aonde, homens fardados correndo com espingardas, depois em calções correndo e caindo atrás de uma bola. Uma bola maior do que aquela com que eu brincava quando era cachorro.
La terei de comer a mixórdia das latas. Ai esta vida de cão!

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