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Cabeça de água


Estou aqui no cimo de uma pequena colina, mirando em redor. O castelo além, destaca-se na paisagem e tira-me algum protagonismo. Já cá estava há muito quando eu nasci, bem como uns retalhos de muralha, umas quantas torres de igreja e muitas casas; umas ao lado das outras, (respire um pouco se estiver cansado de subir as escadas) outras empilhadas umas nas outras.

Ninguém me disse, mas por conversas que escuto ao meu redor, soube que o castelo e essas pedras em parede amuralhada, são apreciadas. Coitados dos que sofreram a bom sofrer para as fazer, para as defender e para as atacar. Pois é certo que elas não foram para ali sozinhas e uma torre e uns muros serviram certamente de palco para muitas e longas disputas. Esta gente ferve em pouca água e, quando menos se espera, acontece o que se diz que tem de acontecer. Pedra para cá, faca para lá, lança para cá, seta para lá, bala para cá, bomba para lá.

Também sei que tenho os pés espetados no chão ao pé de umas casas arruinadas, ou lá o que são, muito mais antigas que eu e que o castelo. Calhando, as pedras que lá faltam, foram levadas para as muralhas...Não estava cá e não falo mais nisso, para não me chamarem inculto. O que eu sei é que me puseram aqui, me encheram e esvaziaram a cabeça de água durante muitos anos. Cuidaram de mim. Não pude sair daqui, enterrado de pés e sem mãos, lá fui dando água a muita gente... como pude e soube.

Agora, não sirvo para nada. Ainda por cima, estou num sítio onde não me posso esconder e não me posso desviar... malditos pés enterrados no chão. Bem, se não fosse isso, talvez já tivesse caído.
Espero, assim, o meu destino. Muitos nem me conhecem e nem me olham, mas há gente que me quer ver daqui para fora; outros querem-me ver aqui a passar o resto dos meus dias; outros, ainda, querem por na minha cabeça restaurantes, miradouros...

Se decidirem atirar-me a baixo, não se enganem. Eu sou o depósito de água de beja, de cabeça arredondada e sem cabelo (talvez dois ou três). O de cabeça quadrada e sem pescoço é o castelo que fica ligeiramente o lado.
Um depósito de água sem préstimo... como aquele que me fez falar....




Comentários

Anónimo disse…
Muito bom tio, é pena quererem tirar-nos um dos ícones da nossa cidade, do antigamente, deviam era pensar em alternativas em vez de destruírem tudo de uma vez, tudo tem uma solução, tudo tem um reaproveitamento... Será que também nos estará destinado cair o nosso Castelo e nada fazerem? Espero que não
jvpinto disse…
Muito bem. Amar o passado, a sua memória, principalmente as boas memórias, para corrigir o presente, mantendo o bom e evitando o mau. Por trás das obras do passado estão pessoas, artistas, trabalhadores, operários que deram o melhor de si para os seus descendentes (nós e os que virão) poderem usufruir delas. Sem o passado seríamos nada...
jvpinto disse…
Estive a ver-te hoje. Parece que tens os dias contados. Tens uns andaimes à volta como uma camisa de forças. O castelo também os teve, mas safou-se. Mas tu não terás essa sorte ou azar!...

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