Avançar para o conteúdo principal

A via sacra


Muita gente católica, e não só, sabe que a via sacra deste ano litúrgico, já passou. A Páscoa também... Mas Cristo voltará a nascer, viver, fazer a via sacra, morrer e ressuscitar. Teremos a nossa nova Páscoa.Mas não é dessa via sacra que gostaria de escrever ou falar...
Gostaria de escrever sobre a via sacra que, nos nossos dias, todos fazemos. Toca o despertador e aí vai começar a via sacra diária de imensa gente. Ligar e desligar coisas, apanhar e largar transportes, pessoas e crianças. Fazer coisas, dizer, ouvir, discutir, decidir, rir e chorar. Regressar a casa, não esquecer o super, a farmácia, o pão, o passe, o carro, a boleia.
Depois, as vias sacras especiais...
Num dia e numa hora vamos mostrar-nos ao Sr. Doutor... Chegar, esperar, contar as maleitas, esperar pelo receituário - um produto natural, artificial ou assim-assim?
Contam-se os euros, vai-se à farmácia, fazem-se terapias, novos exames, Volta-se daí a umas semanas, Ai este peso... E esta tensão arterial! Outra consulta no CS. O computador emperra,.. "Venha daqui a uma semana porque o exame tem de ser sancionado pelo "chefe". Ressonância não se pode prescrever...
Noutro dia, tratar dos papéis para "meter" o IRS. Faturas, verificar. Ir às finanças ou fazer no computador? Eles já lá têm tudo... Tira a senha da vez, volta a verificar, Onde pára a prescrição médica? Deixa estar como está; vamos regressar a casa para acalmar... dormir sobre o assunto. Amanhã começa a mesma via sacra.
Numa sexta-feira santa, o sacristão, na frente com o crucifixo, a rapaziada e alguns crentes atrás, inicia a via sacra. Relembram-se os passos, as paragens, as palavras e as "estações". Uns assistem e praguejam, outros zombam e outros querem lá saber. Jesus arrasta a sua cruz até ao calvário para aí ser crucificado.
Há várias cruzes e vários "calvários". Mas cada um leva a sua cruz, agarra-a, até mata e morre por ela,  Um certo dia, agarrados às ilusões e desprendidos das vestes terrenas, abraçados à nossa cruz, chegaremos ao calvário. Bateremos à porta, chamaremos o redentor e, quem sabe, ele nos guiará para irmos mais Além.
Será que batemos na porta errada? Não era este o Deus a quem rezámos? Estarão os deuses nalguma festa ou a dormir?
Até agora ninguém apareceu...
Abram a "PORTA", por favor...

Comentários

Mensagens populares deste blogue

Maldita Enxada

Feita a escola primária, os irmãos Jeremias e Alberto trabalhavam no campo, podando, escavando e redrando com a enxada, acartando uvas em cestos vindimos, varejando, colhendo a azeitona. Enfim, um ciclo de tarefas exigidos pelos vinhedos, olivais e matas circundantes à pequena aldeia onde foram criados. Ciclo esse, regulado pelas estações do ano e o saber acumulado pela experiência e transmitido de pais para filhos. Jeremias e Alberto trabalhavam para um reduzido número de proprietários, já que de seu apenas tinham a casa modestamente mobilada de que as enxadas faziam parte. Pelo seus vinte e poucos anos, andavam a rotear com mais alguns homens para os lados das Antas. Aos pares, um com um ferro afiado aluía a terra e o outro com enxada ou pá virava a terra solta de modo criar uma vala de um metro de profundidade, tapando a vala anteriormente aberta, de modo a trazer à superfície a terra nova e mais produtiva e remetendo para a profundidade a já cansada. O dia de trabalho estav...

Perdido

O meu alfa diz-me para sair do carro depois de parar na berma da A24 e eu, educadamente, saí. Ele partiu e eu fiquei. Ainda esbocei uma tentativa de correr atrás do carro, mas não merecia a pena. Perdido, sem cheiros conhecidos para me orientar foi andando, procurando água e comida. Nada, a não ser aquele ruído rouco de carros a passar e cheiro penetrante a algo queimado. Ladrar não era solução. Passa um dia, vem a noite, novo dia e continuo a minha busca. Já o sol ia desaparecendo quando um carro pára. Não é tão grande e bonito como aquele do meu antigo alfa a quem fora fiel. Abrem uma porta e eu, desconfiado espetei as orelhas, fixei o meu olhar e o meu olfato, apesar de confuso pelos fumos e gases dos carros. Algo me diz que são de confiança. Entro para a parte de trás do carro. Não teria uma outra oportunidade como aquela. Vamos, certamente, para uma nova casa e terei um ou mais novos alfa. Há horas de sorte, se bem que ainda era cedo para ficar alegre e tranquilo. O cheiro a ...

Traição

- "Então, Calhona, lá traíste a nação!". Dizia em ar de reprovação e, ao mesmo tempo, zombeteiro o Carica.  - "Foi obrigado, meu padrinho, foi mesmo contra a vontade! Eles eram muitos e apanharam-me". desculpava-se o Calhona. No período do entrudo na aldeia, os moradores do cimo de vila e o baixo de vila passavam a ser considerados duas nações desavindas... A fronteira era a rua principal que a cortava a meio. Para além das ameaças e altercações entre os moradores desavindos, em horas mais renhidas havia tiros de caçadeira para o ar, mas na direção dos inimigos... O Calhona, à noitinha, como se lhe acabou o inseparável tabaco de enrolar, fez uma sorrateira incursão à taberna localizada no fundo de vila par o comprar. Mas foi detetado por ativistas inimigos, que o apanharam, interrogaram e o obrigaram a pegar numa caçadeira e disparar na direção do cimo de vila. A ação foi testemunhada e difundida por toda a aldeia como mais um triunfo dos da aldei...