Cum subit illius tristissima noctis imago,
qua mihi supremum tempus in urbe fuit,
cum repeto noctem, qua tot mihi cara reliqui,
labitur ex oculis nunc quoque gutta meis.
Estes versos iniciam o prólogo de um poema - Tristezas - de Ovídio. Relembro-o de memória, de vez em quando, truncado pelos largos anos decorridos desde que o estudei. Mas a Internet, ajudou-me a colá-los aqui e à respetiva tradução:
Quando me vem à mente a imagem tristíssima daquela noite
a qual foi, para mim, os últimos momentos em Roma,
quando relembro a noite em que abandonei tudo o que me era caro,
ainda, agora, dos meus olhos escorrem lágrimas.
A tristeza de abandonar forçadamente Roma, Beja ou Foz Côa, seja porque circunstância for, será sempre dolorosa. Não há resiliência que nos valha. Perdem-se temporariamente ou de vez os amigos, a família, os vizinhos e aqueles mimos gastronómicos...
Mas, isso é o menos, que os portugueses estão por todo o lado com o seu bacalhau, presunto e garrafão...
Transportados em caravela, barco, comboio ou autocarro. O que interessa é ir e, se possível, voltar.
Desterrados por força alheia ou própria, esses olhos lacrimosos vão sofrendo em silêncio, trabalhando, fazendo pela vida, cerrando os dentes e acabando nas festas do reencontro, do carro que se conseguiu mostrar ou casa que se fez erguer.
Do outro lado, enganar a dor, fazer das tripas coração, Um abraço e um beijinho daqui para os meus filhos e netinhos na Suiça... e irmãos e irmãs em França e no Luxemburgo.
Migrantes, errantes, "fugintes". Este império romano, que a Europa já tentou e tenta recuperar sem sucesso, vai fazendo verter as suas lágrimas amargas.
Mas há um outro mundo ou sub-mundo, que circula freneticamente nos satélites, nas antenas e nas fibras óticas em eletrões, nos computadores e telemóveis. Em correria louca, compram-se e vendem-se bens, coisas, miragens, coisas de coisas, As praças, as acções sobem e descem, Os banqueiros analisam, transacionam. Os políticos demarcam-se, combinam estratégias, fazem programas, prometem... influenciam, ziguezagueiam. Coros de vozes influentes, jornalistas e futebolistas, a "gente" da "alta", procuram fazer-se entender, repetem a repetição, marcam a verdade e demarcam a mentira.
Ovídio - lembra-se dele no início deste texto? - levanta-se cedo, não em Roma como eu você pensávamos, mas em Elba, onde é notificado, por sentença do Imperador Augusto, para abandonar Roma, onde possivelmente moraria, e ir para Tomis donde não regressará.
Comentários
Gostei muito.
Principalmente por partilhares, tanto que tens aí "escondido" dentro de ti..
Continua.
Beijinhos
Zinha